Adeilton Oliveira de Queiroz
Gama / DF

 

 

Adversos do amor ou "antiantibiótico"

 

nuns paredões gosmentos e danificados
repletos de plânctons repulsivamente cariados
repousa escorado e abandonado
um débil portão de ferro magoado e cheio de feridas
os românticos retardados chamam esse portão de vida
mas, quem é rasamente inteligente
sabe que esse lúgubre portão não tem nada de vida não
porque o que existe aqui é um tétrico desenho de desanimação
somos um grupo de esfinges descalcificadas e sem meninges
e vivemos nesse portão
somos acros cravos coloridos de amarelos pardos e
rodeados por anjos débeis em descompasso
somos um conjunto de cavalos banguelas
deitados nesse imundo portão que é frágil e sem tramela,
somos uma colônia de líquens num estado vermífugo em decomposição, num lugar onde só reina a derrelição
somos filhos do sol, mas somos não legítimos, somos um grupo de inábeis bastardos e esquisitos
somos um não remédio, um misto de desamparo, medo, tédio
um destrutivo antiantibiótico, num ambiente  deletério ;
porque por aqui tudo e todos são do amor adversos
e de sabor triste, espinhoso, sincopado, não célere, torto e perverso
uma egrégora de insucesso
porque nessa usina do cansaço, nessa teia do não sonho
que só tem como farol e ciência a eterna degenerescência
aliada ao enfadonho ranger de dentes das piores serpentes que cortam,
da esperança, os laços;
o que existe aqui é apenas anáguas danificadas, mágoas consolidadas
e fracasso.

 

 
 
Poema publicado no Livro "100 Grandes poetas modernos" - Edição 2018 - Setembro de 2018