Hita Dutra
Barra da Estova / BA

 

 

Trechos de um coração segmentado




Aquela bela mulher não se conformava em ter que deixar ir embora um amor tão ímpar, um amor que ela nunca havia sentido por ninguém. 
O olhar deles era diferente, o toque das mãos causava arrepios, e o abraço, ah! Aquele abraço que trazia calmaria, até mesmo em dias que o coração estava em grande euforia, mas ambos se afagavam e a troca de carinho entre eles era uma coisa incrível, que mesmo se estivessem longe um do outro, quando se falavam, ela se sentia confiante, e a distância era apenas um detalhe que não conseguia afastá-los, mas os mantinha cada vez mais conectados. 
Tudo apenas em pensamentos e sonhos… ela sonhava com ele constantemente, e nos pensamentos dela, ele fazia moradia... na verdade não vivenciaram intimamente o calor de toda aquela ardente paixão nem o amor em erupção… pena, se tivessem se dado a chance, poderiam ter vivido extasiados pelos sentimentos indescritíveis por toda a eternidade...
Mas, quando ela sentiu que perdeu o que de fato ainda nem era dela, e os seus sentimentos sempre foram verdadeiros… eram incompreendidos? Talvez… não se sabe ao certo, sabe-se que dóia demais sentir que não teria mais de volta o que se quis por tanto tempo, ficou então uma lacuna… será preenchida por outra pessoa? Não, não será, cada um tem uma passagem diferente na vida das pessoas, e até aquilo que não foi vivido, poderá ser,  do jeito que sempre foi sonhado.
Então ela se viu mais uma vez com o rosto banhado em lágrimas, e os seus olhos ardiam tanto, eram lágrimas aquecidas por um sentimento muito forte... ela acreditava no amor de verdade... Ele? Ah! Acredita-se que não, talvez achasse que era ilusão ou uma paixão passageira, não se sabe ao certo... Pra ela então naquela noite se estabeleceu ainda mais um incógnita entre eles, porque doía tanto aquela partida , mesmo depois de tantas outras já ocorridas, mas foi diferente pois as lágrimas que escorriam muito quentes , de repente se tornaram gélidas, mas não cessaram em curto prazo, e por longas horas ela se viu num mar de solidão , como se fosse perder todos os outros motivos para viver…
Aquele choro com lágrimas geladas a deixou com muito frio, os lábios arroxeados e um arrepio incontrolável na pele... talvez ela não sobrevivesse mesmo depois de ficar submersa  com todos os seus sentimentos afundados e presos numa firme âncora cravada numa rocha…
E junto a ela o que restou naquelas águas frias, foi o calor exorbitante afixado dentro dela, do abraço que só ele sabia dar, sabe, "aquele abraço..."

 

 


 




Conto publicado no livro "Aquele abraço" - Contos selecionados
Edição Especial - Outubro de 2020

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