Alberto Magno Ribeiro Montes
Belo Horizonte / MG

 

 

O homem que tinha medo de sair de casa

 

                       Lembro-me bem de meu vizinho, Seu João, desde que eu era criança. E me recordo, que uma das primeiras viagens que fiz, foi com ele, para a cidade de Sete Lagoas, a aproximadamente 70 Km de BH. Fomos e voltamos no mesmo dia, pela “estrada velha”. Seu João era comerciante do ramo calçadista e tinha negócios na referida localidade.
                        Numa bela tarde, conversando com esse meu vizinho, notei que ele constantemente falava de acidentes envolvendo veículos…tragédias que aconteciam cada vez com mais frequência. Percebi então, que falar sobre esses acontecimentos, era seu assunto preferido. Uma vez perguntou-me: - Você ficou sabendo, que ontem, um ônibus que estava indo para São Paulo, chocou-se com uma carreta carregada de minério matando 20 pessoas? Todos os dias tinha um caso diferente para contar. Devido à constância dos acidentes, foi ficando cada vez mais receoso. E o medo de sair de casa acabou virando uma tortura. Morávamos num bairro próximo ao centro da cidade e numa manhã, após ficar sabendo de um acidente envolvendo um coletivo da linha que ele estava acostumado a usar e que fazia o trajeto até lá em pouco mais de 20 minutos, contou-me que estava ficando com medo de andar de ônibus urbanos. Viajar… pegar BR então, nem pensar! Dizia: - A partir de agora só  dentro da cidade e em último caso! Quando não tiver  outro jeito e mesmo assim levarei meu inseparável terço e irei e voltarei rezando, para que nada de ruim me  aconteça.
                        Certo dia, em frente a sua residência, um menino que brincava na rua saiu correndo para pegar uma bola e quase foi atropelado, não fosse a destreza do motorista, que freou a tempo de evitar uma tragédia. Após esse incidente, sua fobia chegou a um ponto em que disse, decidido, que não mais sairia de sua moradia. Aquilo virou uma neura… Dos afazeres domésticos, sua esposa já cuidava. Para seus negócios, passou procuração para um genro, de modo  que não precisaria sair para mais nada. Se adoecia, chamava o médico em casa (graças a Deus, após anos de serviço duro, as economias que acumulara permitiam essa mordomia).
                        Os anos foram passando e chegou a aposentadoria tão desejada! Agora seria mais fácil, pois já estava acostumado a ficar sempre em seu lar mesmo! Ficava ora vendo televisão…ora ouvindo  rádio ou lendo um bom livro. Chegou ao cúmulo de não querer sair nem mesmo para ir ao quintal de sua casa, pois poderia cair da pequena escada que dava acesso a ele a aí já viu, né?
                        Um dia levou um tropeção na sala, que resultou numa torção no tornozelo, lhe causando muita dor e transtorno e então  disse determinado que daquele dia em diante, só ficaria dentro de seu quarto. Então o reformou todo, fez algumas adaptações, para que não precisasse mais sair dele pra nada. Sua esposa lhe trazia a comida  e possuía um banheiro próprio, televisão, rádio, etc…
                        Assim passaram-se os anos, e quando já estava bem velhinho, um dia cismou que deveria confessar-se e receber a sagrada comunhão, pois assim estaria preparado para a morte, que, segundo ele, não demoraria a chegar… Chamaram então um padre, realizando-se assim esse seu último pedido e a partir desse dia, só ficava calado, com o pensamento vagando sabe-se lá onde…  Chegou a um ponto em que não tinha mais vontade  de sair da cama para mais  nada, nem mesmo pra fazer suas necessidades fisiológicas. Com isso foi perdendo ao forças e definhando cada vez mais…Coitado, após alguns dias nessa situação, morreu naquela cama. Descansou…disseram!

 

 

 
Poema publicado no livro "Contos de Amor e Ódio" - Julho de 2018