José Anilto dos Anjos
Ribeirão Pires / SP

 

 

Na lama de Brumadinho

                

Estou aqui, preso na lama. Você me olha, de longe, não pode chegar perto. Sou apenas um animal. Sou grande, não tenho como sair daqui. Não tenho como ser salvo. Olho para você, sei que me olha com pena, sei que está pensando em como me tirar daqui. Não há opções.
Não tenho culpa dessa situação, nem você. Sou vítima da ganância humana. Sou apenas um animal. A morte me espera. Olho para você. Eu não entendo porque tudo isso, porque o ser humano provoca tanta destruição. Há pouco eu estava no pasto, junto ao rebanho. Agora o rebanho está afundado na lama, e eu aqui, preso.
Mas sei que não foi você. Você não tem respostas. Você quer me salvar, não há meios. Apenas aguardo o momento da minha morte. Por favor, não pense, não sinta. Apenas me dê um tiro de misericórdia. Abrevie meu sofrimento. Sei que você pode fazer isso.
Não temos culpa. Não deixe que as lágrimas embacem seu olhar. Apenas um tiro. Não tenho escolha. Você também não.
A ganância de seus pares te colocou nessa situação. Não há saída. Meu destino é morrer, o seu é me matar. Por favor, alivie meu sofrimento.
Em breve serei apenas parte desta lama, sei que você se lembrará de mim, talvez com remorso por não conseguir me salvar dessa situação. Tenho pena de você. Não pense mais. Mesmo que eu sobreviva, meu destino é a morte, para servir o ser humano.
Me dê o alívio da morte rápida, abrevie meu sofrimento. Apenas um tiro. Por favor...

 

 
 
Publicado no Livro "Contos Livres" - Edição 2019 - Abril de 2019