Nilton Rodrigues Junior
Itabuna / BA

 

 

Silêncio e fé

 

           

    Alguém puxa a corda e as badaladas do sino se esparramam pelos corredores.
Uma badalada. Uma foi a mulher que não tive, poderia ter tido apenas uma, gostaria que fosse apenas uma.
     Duas badaladas. Dois são os únicos amigos que tive, dois inseparáveis amigos, dois grandes amigos, somente dois amigos.
     Três badaladas. Três são as pessoas que moravam em minha casa, sou filho único, muitas vezes orgulho, outras decepções.
     Quatro badaladas. Esse bendito sino que me acorda, de meus sonhos, aqui no meu quarto, bendito quarto.
     Abro os olhos e dou de cara com o teto branco e nu. Desejo um bom banho, a noite foi quente e minha mania de suar ainda não passou. Minha cela pequena não tem muita ventilação, o que piora a noites quentes e abafadas dessa época do ano. Mal começou o verão e o calor impiedoso se aloja na minha cela. Bendita cela! Minha única companhia é esse ar quente que grudado ao meu corpo me faz sacudir de um lado para outro na cama. Quanto eu daria para ter um ventilador! Mas o supérfluo deve ser deixado de lado. Também meu desejo pelo banho terá que ser deixado de lado, como outros tantos desejos. Benditos desejos! Pois não daria tempo de estar às 4:20 h na capela para a Prima.
     Devo tirar as roupas do mundo e colocar a roupa de Deus. Roupa que visto como minha própria pele, roupa que me serve de escudo e proteção contra o mundo, contra todos aqueles impiedosos desejos. Bendita roupa!
     Já estou de pé e nu. Nu de desejo, das roupas e de mim mesmo. Meu hábito preto pendurado me convida. Ele é pesado. Pesado é seu tecido, áspero em meu corpo. Pesada é sua cor. Pesado é seu sentido. Sinto seu pano roçar minha pele como se fossem mãos macias, mãos de Deus, é lógico! Lembro-me nessa hora da regra que professo: “castigar o corpo”, disse são Bento, castigar com o hábito, com o chicote, com as proibições, com os desejos.
     Na saída da cela encontro outro monge, nos cumprimentamos com um aceno de cabeça. A regra diz para falar pouco, o mínimo necessário e cumprimentar um irmão não é o mínimo necessário.
     No corredor lembro-me da noite, do calor, do suor, do desejo pelo ventilador, dos meus desejos inapropriados para meu estado monástico.
     Chegamos, enfim, na capela e lá está Deus. De pé o Abade espera que formemos um fila de dois-a-dois para entrarmos na capela silenciosa, sombria, na casa de Deus, ornada de ouro, bronze e prata, e das vidas ceifadas de camponês, índios e negros. Ornada para Deus, ornada para os homens. Bendita capela!
     Fico ao lado do mesmo monge que cruzei no corredor e só agora, sem capuz, é que reconheço meu companheiro de turma. Entramos no mosteiro no mesmo dia e juntos fomos consagrados monges. Foi lá, naquela cerimônia, que pela primeira vez o hábito tocou meu corpo e eu fui invadido pela glória de Deus. Bendita glória! Foi naquele dia que comecei a odiar a própria vontade, com diz são Bento. A mocidade ainda corria em nossos corpos, nossos rostos deixavam transparecer o desejo ardente por Deus, pelas orações e pela vida monástica. Não que hoje esse desejo tenha esfriado, mas já se vão 40 anos. Somos monges respeitados, quietos de palavras e sentimentos, o último e único sentimento que nos resta é a vontade de ficarmos, cada qual no seu lugar marcado, adorando a Deus.
     Mas será que alguma vez eu tive outros sentimentos?
    Lembro-me vagamente de meus tempos de juventude, dos meus pais, dos amigos, dos dois amigos, do tempo de igreja, de grupo de jovens, das namoradas que não tive, dos beijos que não dei. Foram tempos de provação e duvida, foram tempos de riso e choro, foram tempos de oração silenciosa e solitária. Foram tempos difíceis. Bendito tempo!
     Volto minha atenção para a fila, o Abade começa a andar. Vamos entrar e orar. “Trabalhar e orar”, trabalho, é claro, para a glória de Deus, para o gozo eterno. Bendito gozo!
Dentro da capela cantamos o Deus in adintórium meum intende, meu único auxílio é Deus. Meu único auxílio nas horas de tentação, na perseverança do meu chamado, nos estudos, no almoço, na vida.
     Volto a pensar em tudo que se passou e que eu não soube aproveitar, ou não pude. Foram festas, farras, mulheres. O quanto será que eu teria sido feliz se tivesse escolhido outro caminho que não o do monastério? E se tivesse casado, tido filhos?
     Penso nessa hora em todas as mulheres, Anas, Marias e Fátimas, que eu não tive. Será que teria sido feliz casado e com filhos?
Não sei e pelo visto nunca saberei, pois hoje todas essas perguntas devem ser emudecidas. Minhas inquietações devem estar restritas apenas a “trabalhar e orar”. Devo apenas conviver comunitariamente com outros monges. Benditos monges!
     Minha atenção se volta para a capela é o início do cântico de Zacarias, todo cantamos o Benedictus.
     Meu coração se aperta pelas minhas lembranças, meu coração se aperta de tristeza e culpa. Bendito seja Deus, bendita Maria mãe de Deus, Maria mãe, Maria esposa, Maria mulher. Devo afastar rapidamente da cabeça, do coração e do corpo esses pensamentos.
     40 anos de monastério, 40 anos de total obediência, 40 anos de pobreza, castidade e silêncio. E se eu abandonasse tudo, jogasse minha vida no chão dessa capela, na direção do altar, de Deus? Tirasse o hábito, minha pele? Saísse correndo pelo corredor central da capela, que me conduz a rua, ao mundo? Saísse nu, procurando a primeira mulher para possuí-la, para perder minha virgindade, minha virgindade biológica, minha virgindade espiritual? E se me tornasse um homem qualquer, sem vocação, sem preocupação com Deus e com os outros, sem ter nome ou hábito?
     Meu coração volta a arder de desejo e culpa. Odiar a própria vontade.
     Já estamos no Domine, exáudi oratiónem meam.
     Todos se levantam silenciosos, extasiados. Saem da capela em silêncio.
     Permaneço no meu lugar. Não ouso pensar, respirar, desejar. Sinto-me culpado. Sou merecedor de castigo, de castigo eterno. Pequei por pensamento, por desejos, contra Deus e o Mosteiro. Bendito Mosteiro!
     Olho o corredor central da capela. Olho o altar e o crucifixo. Olho atento, imóvel. Calado.
     Ajoelho-me diante de Deus e digo sim!


 
 
Poema publicado no livro "Contos de Outono" - Edição Especial - Junho de 2017