Rita Lucia de Lucas Tré Becker
Petrráopolis / RJ

 

 

Um episódio mágico ou estrambótico

 

           

Em pé, encostada na parede, os outros estavam deitados no chão, ou melhor, quem estava deitada era eu e os outros em pé, encostados na parede. Espera aí, vou organizar este pensamento. Uma lembrança dos anos 80, que me veio agora. Vamos lá.
Às vezes me bate uma vontade de remexer nas histórias, como se eu estivesse misturando os ingredientes secos de um bolo com as mãos e desta maneira as imagens que estão esquecidas vêm à tona e as que estavam por aqui, na beira do raciocínio, desaparecem. Mistura, mistura, as imagens unem-se às palavras e formam uma narrativa. Uma narrativa mixada com a vida de agora.
Estava muito frio e vestíamos tocas, suéteres, meias até o joelho, calças jeans, de moletom ou de lã. Nossa! Bastante frio fazia em Visconde de Mauá. Uns oito amigos juntos na casinha, no Vale do Pavão. Histórias sendo contadas, risos, brincadeiras e tudo o mais que você possa imaginar… Vida, alegria, juventude! Cobertores, mantas, colchonetes. No chão, estávamos recostados. Eu estava em pé, eles, deitados; não, eu deitada… ah! Não lembro ...
Faltava cigarro – fumávamos todos, isto é, todos fumávamos – Uma impaciência e uma procura pelo tal do cigarro. Ninguém tinha mais. Acabara. Saíram para procurar cigarros, além de ver se qualquer cidadão que passasse pela estradinha que levava à cachoeira – o que seria difícil - poderia nos ceder algum.
Fiquei dentro de casa, na sala. Deitada e com muito frio. Passaram uns minutos e...
- toc, toc, toc. Escutei bater na porta.
- hum, entra aí, não vou levantar, está muito frio. Eu disse.
- toc, toc, toc, hi, hi, hi. Umas risadinhas do lado de fora, eu ouvi.
- aí, quem é? Perguntei.
- hi, hi, hi. Mais umas risadinhas e um silêncio…
A lua toda brilhava nas matas, estava em seu auge, bem no meio do céu. Uma bola linda amarela iluminava o terreno onde ficava a casinha e iluminava a estrada também. Tudo claro e mágico.
Levantei, abri a porta, olhei e vi, correndo para a mata, uns personagenzinhos de gorro colorido e baixinhos. Sumiram. Incrível como desapareceram tão rápido…
Uau! Fiquei pensando quem eram aqueles seres tão bonitinhos e tão ligeiros. Lembrei das travessuras contadas em histórias de encantamentos para crianças.
A lua e a rua estavam lindas. Um brilho retocava alguns arbustos. A noite criava um ar misterioso na mata.
Esperei mais um cadinho e nada daqueles personagens. Fiquei um pouco na varanda, onde havia uma gostosa rede. Olhei para a porta e - qual não foi minha surpresa? - uma porção de cigarros estava no chão pertinho da entrada.
- Ué! Quem deixou isso ali? Falei sozinha.
Fui lá e peguei os cigarros. Uns dez, devia ter. Pulei de alegria, só que não entendi nada, nada mesmo. Entrei e fiz fumaça, né? Guardei para os outros que já demoravam. Eles foram retornando aos poucos. E quando todos já estávamos juntos e eles se diziam decepcionados porque não conseguiram o que foram tentar trazer, então, eu contei para eles o ocorrido e fiz a distribuição dos cigarros. Duvidaram de mim, não acreditaram em nada que contei.
Se fumaram os cigarros? Fumaram.
Mauá era pouco conhecida e não existiam muitas pousadas como existem hoje. Estradinha de chão, a partir da divisão para Penedo. Terra batida até lá: na vila de Mauá.
Ao chegarmos víamos logo a igrejinha e o campo de futebol, logo ali a vila. Uma rua com um comércio simples: bar com mesa de sinuca, alguma loja de roupa e não me lembro o que mais. Um pouco a frente e estávamos no assim chamado lote 10. Mais casas e mais comércio. Para um lado, íamos em direção à Pedra Selada e, para o outro, Vale do Pavão e Maringá.
Andávamos tudo a pé, sem cansaço. Uma carona ou outra... por um trecho... até ali... mais a frente. E continuávamos a pé. Felicidade e simplicidade! Rolling Stones, Chico, Milton, íamos cantando pelas estradinhas: My sweet lady Jane, when I see you again…Como a música nos remete às vivências que tivemos! A música traz em si uma divindade cósmica.
He! He! He! De repente, agorinha, me vi caminhando por Mauá e cantando. É... caminhando e cantando… Em cada esquina um dedilhar de violão e uma voz ou várias vozes: todo artista tem de ir aonde o povo está, e foi assim e assim será...
Naqueles dias, tive de aturar meus amigos falarem sobre o assunto dos cigarros exaustivamente. Os duendes (!!??) não voltaram mais para comprovar a minha história. E trago comigo aquele lembrança encantadora e generosa ocorrida naquela noite de lua cheia.
A propósito, hoje em dia, não fumo mais e talvez não mais veja duendes em minha vida. Uma coisa é certa, fiquei com a fama de ter escondido os cigarros da rapaziada para depois dar aquela desculpa estrambótica (na opinião deles, é claro).


 
 
Poema publicado no livro "Contos de Outono"- Edição Especial - Junho de 2017