Maria Rita de Miranda
São Sebastião do Paraíso / MG

 

 

Sobrevivência

 

 

         

          Ela era soberana. Todos a respeitavam. Foram criados para viver em harmonia. Ela oferecia aos homens tudo aquilo que eles necessitavam para uma vida saudável e salutar. Rios caudalosos de águas puras e cristalinas em abundância. Vegetação das mais diversas espécies, de onde os homens tiravam o seu sustento. Ar puro que os pulmões agradeciam. Solo fértil, onde se plantando, tudo dava. Chuva na medida certa. Efeito estufa, ninguém conhecia. Tudo se encaixava tão bem que jamais se imaginava que nosso habitat pudesse, um dia, ser diferente.
          Não se pode precisar exatamente quando as mudanças começaram a ocorrer. À medida que a população ia aumentando, a sede de poder e de conquista também aumentavam. Começaram a perceber que tinham nas mãos, riquezas que, eles criam, inesgotáveis. Já não usavam as fontes de vida só para a sobrevivência. Exploravam-na. A princípio com certa timidez. Mas viram que os resultados eram, para eles, satisfatórios. Não pararam mais.
          Tombaram árvores e não reflorestaram.  O solo era usado à revelia, sem qualquer rotatividade, empobrecendo-o. As casas ganharam esgotos que despejados nos rios, tiravam a pureza das águas. Tudo aos poucos, mas continuamente, sem se ter consciência de que uma catástrofe podia acontecer.
          Até que, passados muitos anos, alguma coisa mudou. Em se plantando, nem tudo dava. A água tinha que ser tratada para consumo, pois estava poluída. As matas visivelmente diminuíam, e com isto espécies de animais entravam em extinção. O ar, em algumas cidades, se tornava irrespirável. As chuvas se descontrolaram. Abriu-se um buraco na atmosfera, culpa de gases poluentes, tornando o calor muito forte.
          Alguns ambientalistas começaram a dar o alarme. Eram vistos com antipatia. Como o homem demorou a perceber que o caos estava instalado! Continuaram tirando, maltratando, sem dar importância aos apelos que os mais conscientes faziam.
          Então o inevitável aconteceu. A dívida do homem com a natureza cresceu tanto que ele se viu impossibilitado de pagar. E ela, a cada instante, cobrava. Tudo estava tão mudado que fugia do controle dos homens. Calor demais, chuva demais causando inundações ou de menos deixando os rios secos. Estações do ano às avessas. Solo empanturrado de fertilizantes, tendo como consequência alimentos poucos saudáveis. Pragas nas lavouras e uso exagerado de herbicidas, fungicidas e outros venenos mais.         
          A natureza é um todo. Descompensada, vai empobrecendo também como um todo. O homem para perceber isto teve que sofrer para continuar vivendo. Bem ou mal criou regras de convívio com ela para minimizar uma dor ainda maior. E sabem que se não cumprirem estas regras, poderão pagar um preço muito alto. Hoje em dia já não sabemos, com certeza, quem luta mais para sobreviver: homem ou natureza.

 




Conto publicado no livro"Contos de um tempo sem fim" - Edição Especial - Setembro de 2020

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