Alfredo Acosta Backes
Aracaju / SE

 

 

Uma voz suave

 

         

             Ouço uma sirene de som estridente cada vez mais perto, meus ouvidos doem. Ouço gritaria, barulhos de carro e murmurinho de pessoas. Está meio escuro, vejo apenas silhuetas e uma voz suave do meu lado, mas não consigo entender as palavras. Lembro-me de ter saído de casa e beijado minha mãe dizendo:
            - Tchau, mamãe! Vou para escola.
            - Tchau, meu filho, até mais tarde – ela respondeu.
            Encontrei meu pai no portão – Tchau, papai!
            - Tchau, filhão – ele disse me abraçando.
            - Espere ,Junior! Esqueceu sua lancheira.
            - Obrigado, mamãe, tchau, te amo...
            Entrei na van com outros amiguinhos fazendo algazarra. Estava feliz, era 6:30 da manhã  e o dia parecia que iria ser ensolarado, lindo.

            Seu Batista era casado, tinha dois filhos já adultos e trabalhava como gerente de uma loja de móveis. Levantou atrasado, tinha colocado seu celular para despertar  às 5:30, porém no meio da noite a bateria de seu aparelho havia descarregado e não despertou. Eram 7:00 quando ele, de sobressalto, acordou. Olhou para o celular descarregado e exclamou:
            - Minha nossa! Tenho que estar na loja às 8:00 e já são 7:00.
            Levantou rapidamente, tomou banho, bebeu seu café enquanto se barbeava e pegou as chaves de sua caminhonete F1000, branca, que ele gostava tanto. Saiu correndo de casa, pegou a caminhonete e acelerou. Chegou em cima da hora na loja.
            - Bom dia, seu Batista – falou o balconista.
            - Bom dia, José – respondeu Batista.
            - Como foi o Flamengo ontem, seu Batista?
            - Rapaz... perdeu mais uma, mas ainda vamos ser campeões, você vai ver.

            Eu era um garoto de oito anos, branco de cabelos pretos e olhos castanhos. Era o queridinho da professora e admirado por meus coleguinhas. Me considerava inteligente, extrovertido e simpático, pelo menos era o que falavam. Emanava luz ao sorrir, como minha professora falava.
            Havia uma garotinha, que vinha sempre comigo na van. O nome dela era Gabriele, era a amiguinha que eu mais gostava. Brincávamos juntos no recreio, nos divertíamos muito. Sempre que entrava na van olhava de imediato para a poltrona que ela sentava para ficar ao seu lado. Na semana passada, ao entrar na van, não a vi. Nos dias seguintes ela também não estava. Perguntei para a professora e ela me disse que Gabriele havia viajado e não voltaria mais. Fiquei triste naquela semana, mas acabei me acostumando e retornei ao meu dia a dia.

            Era meio dia e Batista estava saindo para almoçar quando sua secretária gritou:
            - Seu Batista! Não esqueça de sua reunião hoje às 13:00hs.
            - Minha nossa! Estava esquecendo, obrigado Joana.
            - Por que sempre estou atrasado? - Lamentou Batista.
            Pegou seu carro e saiu apressadamente. Havia um restaurante no bairro vizinho, perto de um cruzamento.
            - É lá que vou almoçar hoje – Pensou Batista.

            A van chegou para nos pegar na escola meia hora depois do horário de saída que era às 11:30. Eu estava com muita fome, entrei na van junto com outros colegas. O motorista fechou a porta e arrancou com certa pressa, além do normal. Ele parou algumas quadras a frente e dois coleguinhas desceram. Novamente arrancou o carro e percebi que ele aumentava a velocidade.
            Batista avistou o restaurante e acelerou, estava com fome e tinha uma reunião em que não poderia faltar. O sinal do cruzamento estava aberto e Batista acelerou. De repente ouviu um barulho muito forte e sentiu seu corpo ser jogado de um lado para outro, várias vezes.
            Ouvi novamente aquela voz suave e percebi meu nome ser chamado. Olhei para o lado e consegui ver uma menininha. Havia um brilho muito intenso em volta dela e pensei que deveria ser a luz do sol.
            - Quem é você? - Perguntei.
            - Junior! Sou Gabriele lembra? - Disse ela.
            - Gabriele? - Exclamei.
            - Você não havia viajado??
            Ela me olhou, sorriu, estendeu a mão para mim e falou:
            - Venha! Sua vovó está esperando você.
            Peguei na sua mão e a segui, sem perguntar nada.
            Caminhamos em direção aquela luz e a cada passo que dávamos uma paz muito intensa me invadia.
            Batista acordou no hospital sem saber o que havia acontecido e perguntou a um dos seus filhos que lá estava:
            - O que aconteceu, meu filho?
            - Você não viu nada? - Perguntou seu filho.
            - Não! Só senti o impacto e acordei aqui.
            - Uma van escolar cruzou o sinal vermelho e bateu na lateral de sua caminhonete.

 




Conto publicado no livro"Contos de um tempo sem fim" - Edição Especial - Setembro de 2020

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