Neri França Fornari Bocchese
Pato Branco / PR

 

 

Que tempos...

     

             

Se fosse possível adivinhar, prever o futuro, como estes tempos não foram antecipados... Se fosse possível saber o que vai acontecer também nos seria possível evitar ou ao menos melhorar os fatos. 
Fico cismando se fomos Criados à Imagem e Semelhança, se foi nos dado o Paraíso por que agora fomos jogados nesse vendaval, impossível de ser evitado?
Se a mãe Terra, está cansada de nós, os seus filhos, o que é impossível de acreditar, afinal,  Mãe cansa de um filho?
Talvez esteja com vontade de nos dar umas palmadas, mas apenas palmadas; o que está acontecendo, já passou dos limites.
Quem poderia acreditar que nos fosse proibido sair de casa? Andar nas ruas? Conversar com os vizinhos, tomar chimarrão, o que fazíamos todos os dias pela manhã e à tardinha, nos vizinhos, nos amigos?
Fomos criados para liberdade. Já moramos em cima das árvores. Dormimos no relento ou em cavernas. Percorríamos quilômetros atrás da caça. E, agora?  Nem se encontrar com os filhos!? Nem ir à janela para prosear. Ou conversar no portão ou ainda na cerca.
A angústia gera a impossibilidade de vislumbrar o amanhã.  
Mas sonhar com a liberdade nos faz bem.  Se podemos sonhar, continuamos livres, embora enclausurados. 
Impossível acordar e pensar: mais um dia. Queira Deus que passe logo.  
Ver o Sol deslumbrante, ver a vida passando e a gente encarcerada, sem poder comemorar qualquer data, ou um encontro. Sem poder ir ao mercado ou simplesmente andar pelas ruas da sua cidade. É preciso senti-la com dignidade.
Uma mudança radical na vida de quem saía cedinho de casa e chegava ao meio-dia para almoçar.
Porém o mais desolador de tudo, foi a porta da Igreja fechada. A Casa do Senhor e, nós obedecendo ordens: Ficar em casa. A saudade de estar num daqueles bancos e conversar com Jesus Eucarístico, foi a maior das tristezas. Eu que não posso me ajoelhar já a mais de 8 anos. Fico sentada e vejo Ele na Eucaristia.
Não poder servir o Altar do Senhor, estar entre os irmãos e, entregá-Lo a cada um, foi a maior das provações.
Mas que tudo seja para a Honra e a Glória de Deus. Todo o sacrifício é válido quando realizado com resignação. A saudade também se transforma em complacência.
A obediência é uma virtude, às vezes, nesse caso, o bom senso, diz que seja feita. 
Se porventura encontrar com um amigo, nem um abraço pode ser dado. O calor humano é uma marca da qual necessitamos muito. Um aperto de mão daqueles que transmitem carinho. Não, o só de ponta de dedo, esse não faz falta.
Sobrou tempo para meditar sobre a situação dos presos. É o maior castigo dado a um ser humano. Encarcerado num cubículo, é o mais algoz dos castigos. Por isso nunca não deveria ser muito longo.
Privar alguém de Liberdade, de Luz do Sol, do convívio com os seus, é muito triste.
E, pensar que um ser invisível foi capaz de fazer tamanha desordem na face da Terra. Não é só um resfriadinho, uma gripezinha qualquer: é uma calamidade pública!
O famoso Corona, não fez escolha por nenhum um povo, nem preferiu  pela sua ideologia. Nem um ser humano pelas suas posses. Também não teve preferência por homem ou por mulher. 
Foi fazendo o seu estrago às cegas, “quem se atravessar no meu caminho eu atinjo!”. 
A princípio escolheu os que tinham mais dias de vivência, mas depois os outros. Até jovens cheios de vida, com futuro promissor. Ainda recém-nascidos. 
A sua maior façanha foi talvez unir o Oriente com o Ocidente. Sejam eles, povos milenares, com sabedoria na área da saúde, com ideais estranhos aos nossos costumes, porém o ilustre Senhor não olhou e nem quis saber de suas aptidões culturais.
Chegou ao Ocidente num instante, não respeitou o Meridiano de Greenwich, tampouco a Linha do Equador, nem o histórico Tratado de Tordesilhas. Mundo capitalista, ufanista, cheio de recursos aparentes, querendo muitas vezes ditar normas a outros povos, saiu perdendo para alguém que nem visto é.
De que adiantaram tantas armas prontas para se defenderem? Ameaças com armas Nucleares? De que adiantaram os Prêmios Nobel, em tantas áreas do Conhecimento? De que adiantaram os Laboratórios com a sua ânsia de produzir remédios e quanto mais faturarem, sobre a dor alheia melhor.
Um “ser” invisível, foi capaz de isolar a humanidade, quer sejam ortodoxos, judeus ou cristãos.  Sejam ricos ou pobres. Ainda aos que não acredita em Nada. 
E, nós a pobre humanidade desprotegida, pedindo socorro ao Senhor da Vida, mas parece que até Ele anda um pouco escondido, resguardado. Não nos quer ouvir ou está nos deixando a própria sorte por nos imaginarmos criaturas que nos bastássemos por nós mesmos?
Senhor, tenha pena dessa humanidade sofredora. 
Livre-nos desse mal, somos incapazes de nos cuidarmos sozinhos.  Nossa humanidade precisa de AMOR. A nossa Humanidade que é a fagulha do Teu Amor/Divindade é que vai nos salvar.
Senhor, somos como a população faminta que Te seguia em Betsaida e, outra vez próxim, do Mar da Galileia. Oh! Senhor, acolhe-nos, temos fome, temos sede de carinho, de saúde.

Precisamos de LIBERDADE.!
Precisamos CONVIVER!
Precisamos ABRAÇAR!

Amém!!!

 

 




Conto publicado no livro"Contos de um tempo sem fim" - Edição Especial - Setembro de 2020

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