Júlio César Freid'Sil
Rio de Janeiro / RJ

 

 

Essência imaculada

     

             

Alcançava naquela época a maioridade e colocava em prática meus anseios de viajar. Após aceitar o convite de um colega de trabalho, rumamos para São João Del Rei, no majestoso, acolhedor e histórico estado de Minas Gerais. Ficamos na Pousada do Ramon bem ao lado da rodoviária. Ambiente familiar. As ruas de paralelepípedos lembravam-me o aprazível bairro de Santa Teresa na minha cidade maravilhosa, que me abrigou nos meus dois primeiros anos de vida e depois dos treze aos quinze anos.
Durante o dia o clima era muito agradável, no entanto ao cair da tarde vinha um friozinho que verdadeiramente não estava acostumado. Pela manhã, chegava uma carroça entregando o leite direto da ordenha, leite puro e muito saudável. A esposa do seu Ramon fazia uma generosa mesa de café da manhã, com queijos, frutas, sempre tinham três tipos de bolos. Certo era o de fubá. Encantadora rotina.
Eu não tinha ideia ainda do que era um turista numa cidade daquela. Eu andava muito calmo com meu amigo, curtíamos praças, músicas em bares. Dentre alguns passeios andei de trem, que também era uma viagem turística e fui para um parque das águas, que era um pouco afastado. Piscinas naturais. Visitei algumas nascentes da região. Fui a um casamento que não me sai da lembrança em função do pileque que tomei de cachaça achando que era uísque. Mas o ponto alto foi conhecer Imaculada. Uma morena, de estatura baixa, modos simples, beirava nossa idade dos dezoito anos e aqueles cabelos longos e um pouco lisos. Não sei se pela nossa combinação astrológica, pois pertencíamos ao mesmo signo zodiacal, tivemos uma sintonia intrigante, que depois se resumiu numa bonita amizade.
Conversávamos muito. Conheci quase toda sua família. Aparecia na porta do seu colégio e brotavam mais prosas. Um dia, que não sei precisar, ela quis me levar num lugar especial pra ela. Aceitei o convite e lá fomos. Era relativamente perto, mas subimos bastante. Um morro, alguns bovinos espalhados pelo descampado, e no ponto mais alto, num recanto, ela disse-me que era ali. Sentamos e quando me dei conta, parecia que eu tinha quase toda a cidade aos nossos pés. Era outro prisma. As igrejas, as ruas arborizadas, outras montanhas e o que ela destacou ser o mais especial, o sentimento de paz.
Por um instante ficamos em silêncio. Eu consegui sintonizar a frequência de Imaculada e essa paz invadiu meu interior, deixando uma sensação maravilhosa de encanto e beleza. Hoje visitando esse passado até um pouco empoeirado, fico imaginando como seria voltar àquele lugar. Certamente tiraria inúmeras fotos do meu aparelho celular e talvez não tivesse mais esse encontro mágico das coisas simples, da minha essência imaculada, que está tão viva na alma. Sim as lembranças mais significativas ficaram no meu coração.  

 

 

 




Conto publicado no livro"Contos de um tempo sem fim" - Edição Especial - Setembro de 2020

Visitei a Antologia on line da CBJE e estou recomendando a você.
Anote camarabrasileira.com.br/contosdeumtemposemfim-010.html