Romilton Batista de Oliveira
Itabuna / BA

 

 

Caverna movente

 

 


           

O mundo. Desta vez desejo falar sobre algo diferente, interpelado por uma voz que me impulsiona a escrever, uma mansa voz que vem de meu catastrófico mundo interior, movido por imagens que se não conseguem encontrar o caminho certo a ser seguido. Esta voz, que é uma mistura de tantas outras vozes, habita o meu interior que deseja ser ouvida.
O mundo. Não foi por acaso que esse signo veio à minha mente, pois o meu pensamento é um amontoado de desejos que a nenhum psicólogo foi dado a compreensão de traduzi-lo, pois este pensamento é moldado por uma incansável voz que sempre habitou o meu ser desde o meu nascimento. O tempo de ser livre é ameaçado por um chamado da humanidade a repensar a sua caminhada. E, partindo de um lugar sem fronteiras e movente, eu, o escrevente desta crônica, não me sinto pronto para escrever o que a escritura do desastre me impulsiona a dizer. Se uma vez tento dizer o que eu não gostaria de dizer, acabo dizendo o que eu gostaria de dizer, porque só se diz o que deve ser dito quando o dito já deixou de ser dito, passando para o outro lado, onde o escrevente não pode mais opinar sobre sua textualidade porque o leitor já se apropriara e dela se alimentara, numa fome voraz silenciada por uma maltratada alteridade.
O mundo. Sei bem o que esta palavra significa, mas, nos dias de hoje, ela está sendo ressignificada pela presença de um catastrófico acontecimento que atinge a todos os habitantes da sofrida terra. Terra-mãe que há muito tempo vem sendo desrespeitada por seus insensatos moradores. Sei bem que falar do mundo é falar da natureza em toda a sua plenitude. Dificilmente as pessoas tinham tempo para pensar. A ocupação com a materialidade preenchia estupidamente o ego dos seres humanos, o estúpido desejo do “ter”, obter a todo preço a riqueza que a vida oferece; riqueza que agora não serve para nada, pois o homem convive com o inédito fantasma que há muito tempo o segue silenciosamente, aguardando o momento certo de se manifestar.
O mundo. Tudo seria diferente se cada um não desejasse o desejo do outro, se cada um criasse o seu próprio desejo: “Não desejarás o que tem o teu próximo”. De nada adiantou para os materialistas de plantão, pois a cobiça e a inveja logo cegavam e encantavam toda a humanidade. Nada conseguia barrar os anseios do homem capitalista! O “ter” sempre foi prioridade na vida da maioria. E agora, o que fazer com esse ter? O mundo se divide na ganância desse admirável fenômeno que administra o macabro capitalismo mundial.
O mundo. As igrejas, os pastores mercenários, as academias que prometiam beleza física, as lojas de roupas caras prontas para serem usadas pelos famigerados ricos da soberba corte endividada, os bares que embriagavam os seres em sua repentina diversão, os bordeis que atendiam os políticos apodrecidos por sua corrupção, os jardins que abrigavam os que passeavam em busca de alguém que pudesse visgar com o seu capitalizado discurso, mediado por uma ultrapassada ideologia. E a justiça, como funcionava? À serviço da conveniência! Salve-se quem puder! Salve-se quem é amigo do rei! Agora, por onde ela anda? Amedrontada, falida, mas ainda viva. Uma luz no fim do túnel ainda existe. E a filosofia, como se comportava diante das atrocidades humanas? Esta foi logo colocada no esquecimentos pelos novos capitalistas da desenfreada força bruta pelo “querer ter”. A filosofia passeia pela indagação, não serve para o mundo dos mandatários de plantão. Bom lembrar neste momento de Platão, ou melhor dizendo, do “Mito da Caverna”.
Os homens acorrentados na caverna, não conseguem ver o mundo lá fora. E essa exterioridade sempre foi violada. Os poderosos a mandar, os “escravos pós-modernos a obedecer”, e assim nos tornamos uma espécie de gente “encavernada”. Homens aprisionavam outros homens, e nem percebiam que também eram aprisionados por meio de sua razão empedernida, desfocada do “Penso, logo existo”. René Descartes não descartou de si a razão, aprimorou-a, mas também cometeu o mesmo erro: não saiu da “caverna”. Talvez o único a sair da caverna da razão predominantemente fixada pelo poder humanamente desumano fora Friedrich Nietzsche, pois ao mover-se da caverna, descobriu a tão propalada “verdade”, levando-o à “santa loucura”. Ao se libertar de si, ao encontrar a “luz”, descobre que ela é produzida por um fogo não-artificial, cuja “potência” projeta a sombra dos objetos no fundo da caverna. Ao ir mais além, descobre um mundo inteiro fora da caverna e não consegue acostumar-se com a Luz do sol, o Bem Supremo. Voltando à sua caverna, ele tenta libertar os companheiros e contar-lhes que o que veem não são as coisas em si mesmas, mas sombras. Estes não aceitam sua verdade e, se pudessem, o matariam. Ele sai da caverna e faz o “giro” que desperta o ser que dorme na razão sem a presença da pura consciência crítica. Descobre que os homens iludem-se com as sombras e, ao tentar não mais viver segundo essas “sombras”, ele encontra fora da caverna, a Luz, a Verdade, o Saber e o Verdadeiro Poder, mas, infelizmente, seu frágil corpo não suporta tal descobrimento…
Assim, mais uma vez, estamos sendo atingido por um catastrófico acontecimento que exige de nós a saída desta “escravocrata caverna”. E que não haja mais “sombras” sobre nós. Sobre nós apenas o lânguido céu apontando para a estrada que a humanidade precisa percorrer, onde o tempo será ressignificado, os espaços ocupados por todos e, finalmente, a libertação do “ter” que sempre cegou e impediu a humanidade de seguir o seu destino: o da vida, e da vida bela, com cavernas humanamente habitadas por todos os indivíduos, movidos por uma voz que me fez escrever, desde o início deste texto, que há no mundo lugar para todos nós. O mundo, vasto mundo que por muito tempo se manteve mudo.

 

 




Poema publicado ni livro"Contos Livres" - Edição Especial - Agosto de 2020

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