Marina Moreno Leite Gentile
São Paulo / SP

 

 

 

Os presentes do Alemão

 

           

      

       

Certo dia, uma família de Santo André, em São Paulo, foi forçada a doar um gato, já crescido, negro e com o rabo tipo pom-pom. O rabo desta raça de gato é diferente dos demais; é curto, impedindo-o de escalar paredes e muros.  Por sorte, Cristine ficou sabendo e se lembrou da irmã, a qual gosta de animais em casa,  embora já tivesse a gata Lorena e o Júlio (um shih-tzu).   Fez o contato para obter a confirmação se a irmã o desejaria. e tudo ok.  A família ficou feliz, pois conseguir um novo lar para animais já crescidos é complicado.  Cristine não podia ficar com ele, mas felizmente a irmã Verônica o aceitou.

Então a outra missão seria transportá-lo.  Ao contrário do  imaginado, o gato não deu trabalho até chegar na casa da irmã, no Jardim São Luiz, sul de São Paulo.  Aquela viagem de aproximadamente trinta quilômetros deve ter sido bem estranha para o felino.   Aliás, quando há necessidade de levar um gato para outro local, normalmente  são filhotes e posteriormente nunca mudam.  Dizem, inclusive, que eles se acostumam com a casa, não com os donos. Será?   

Tão logo foi apresentado,  encantou a todos.  Foi amor a primeira vista.  Agora aquela família tinha que decidir um nome para ele, cada um deu sua sugestão.  Como a família é de origem alemã e dali em diante o gatinho faria parte deles, decidiram dar o nome Alemão.  Como tinha o rabo curto, às vezes também o chamavam de Rabicó.

Em poucos dias ele já estava completamente adaptado, brincando pela casa, entrando e saindo de caixas etc. A outra gata e o cãozinho aceitaram ele muito bem, agora eram três. Como não conseguia escalar muro, era limitado ao espaço interior da casa e ao quintal.  O Alemão virou o xodó da família, a casa ficara mais alegre com sua presença.  Todos queriam brincar com ele.  

Ele tinha o horário certinho para comer, ficava esperando paciente.  Quando percebia o caminhar  de Verônica com o pote de ração, ele se levantava e ficava miando, encostando-se às pernas dela. Ela conversava com ele e parecia que o felino entendia tudo.  Gato inteligente... só faltava falar.

Certo dia ela observou um raminho de capim junto aos seus pés, então abaixou e jogou no lixo.  Como isto passou a ser frequente,  ela percebeu que os capins eram trazidos pelo Alemão.  Ou seja,  ele comia, depois seguia até o quintal, voltava com os capins e  colocava ao lado dos pés dela.  Mesmo que outras pessoas da família estivessem juntas,  os capins eram só para ela.  

E assim ela percebeu que aquilo era especial, um presente do felino Alemão.    Daquele dia em diante ela ficava na expectativa  do seu presente,  e sempre agradecia com palavras carinhosas. Os dois se entendiam.   Em resposta ele miava,  encostava o corpinho na perna dela.  Às vezes podia estar chateada ou preocupada com algo,  mas tudo mudava com a aproximação do Alemão.  Os raminhos de  capim eram guardados  em um saquinho, atrás da porta.   Nenhum ramalhete de flores era tão lindo como os dele.  

Depois que o Alemão chegara naquela casa, muita coisa mudou para melhor, então ela nem gostava de viajar para não ficar longe dele. Se pudesse o levaria consigo.   Mas às vezes era inevitável, então o deixava aos cuidados da Norma Leite, pois sabia que ela também o entendia.  Mesmo estando a quilômetros de distância, o Alemão era presente em seus pensamentos.

Tudo estava normal até que algo aconteceu, foi assim:  Ela tinha uma  lojinha tipo Brechot, na garagem de casa.  O Alemão ficava deitado no terraço ao lado.    Normalmente o período da tarde era mais movimentado, mas certo dia de manhã  ela recebeu uns clientes diferentes e se surpreendeu pelas vendas. No momento que entrou em casa para pegar um troco, passou pelo Alemão e ao retornar não o viu. Não deu importância a isto, pois imaginou que ele entrara na casa ou estivesse pelo quintal.  O dia foi bem agitado.

De tarde, depois de fechar a lojinha,  preparou o jantar da família, em seguida encheu o potinho de ração e chamou o seu amiguinho, mas ele não apareceu. Então ela deu uma volta pela casa, pelo quintal e nada.  Achou estranho, ficou assustada.  No outro dia pela manhã ele também não apareceu, nem pela tarde, nem de noite. 

Daí então a família fez tudo que era possível para encontrá-lo, mas em vão.  Todos ficaram desolados com o sumiço do Alemão.  A outra gata ficava miando pela casa, sentindo a falta dele.  Até o cachorrinho da casa ficou com comportamento estranho, com o sumiço do amigo.

Alemão não conseguia escalar muro, não saía de casa, era calmo, então o sumiço foi um mistério.  Muitas coisas se passaram pela imaginação daquela família, mas nenhuma certeza; apenas  suspeitas.   Isto aconteceu em  13 de dezembro de 2019, uma sexta-feira. Que triste!

 

 

 

 




Poema publicado ni livro"Contos Livres" - Edição Especial - Agosto de 2020

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