Neiva Teresinha Paludo Chemin
Pato Branco / PR

 

 

Itália

 

 

Feltre, uma cidade ao norte da Itália, não tão longe de Pádua, Veneza e Vicenza.
Nessa cidade entre montanhas, o chefe da família Boscarin construiu uma casa confortável. Paredes da grossura de um metro. Com a mesma estrutura, aos fundos era o estábulo das vacas leiteiras. Tudo com calefação, pelo inverno rigoroso daquela região.
O rio Piave seguia o seu curso perto da casa, num singelo murmúrio, com suas águas cristalinas: sensação de mansidão e nostalgia.
Terras longínquas...
Seus habitantes cheios de sonhos... e também incertezas.
Ali moravam pai, mãe e um filho de vinte anos. O pai trabalhava seis meses na Suíça, nas minas de carvão; e seis meses, ficava com a família.
Pai chefe era um conquistador, sempre alegre e cantante. Aos domingos, se vestia impecável, colhia um raminho de manjericão e colocava no bolso do casaco. E lá saía feliz como um pássaro solto da gaiola. Dizia à patroa:
- Vouà missa.
Todo domingo o mesmo ritual. Estava ela desconfiada...
Um domingo, com passos firmes o seguiu. Em uma ruela, perto de uma esquina ele parou, olhou para os lados e sorrateiramente entrou numa hospedaria, que mais era um bordel.
Ah! Mamma mia! Vinho, mais vinho! O safado bailava... com duas dançarinas. Cantava alto: Viva la more...
Meses mais tarde, o filho casou com uma bela moça: Eliza. Felizes, morando com os pais, vieram os filhos: Amália Clementina, Ema, Cândida, Luiza, Gelindo e Ricieri.
Amamentando uma dessas crianças, uma condessa pediu a Eliza amamentar sua filha recém-nascida. Ficaram muito amigas. Contava Elisa que em um dos quartos do palácio o teto era todo decorado com estrelinhas.
O tempo foi passando...
Os filhos de Eliza, já adolescentes, trabalhavam no plantio do trigo, milho e batatas. Estocavam no celeiro, sótão da casa.
Ao acabar as tarefas, as moças subiam a montanha colher morangos silvestres e miúdas e delicadas florezinhas brancas aveludadas: estrelas-alpinas.
Tudo eram sonhos lindos de viver. Cantando desciam com a cestinha de morangos que ofereciam aos queridos avós.
A cidade cercada por altas muralhas bem antigas, tinha sete fontes. Viviam bem. Clementina até foi a Pádua agradecer uma graça a Santo Antônio.
Uma manhã fria... pequenos flocos de neve caiam tocando com delicadeza a janela. A família ao redor do grande fogão feito de pedras e barro. Chamas ardentes consumiam a lenha e esquentavam o ambiente. Leite e polenta na chapa, para ser servida a primeira refeição com o alegre barulhinho das canecas em cima do fogão. Momentos de serena paz.
Logo, ouve-se um alvoroço nas ruelas...
Declarada a Primeira Grande Guerra Mundial.
Todos ficaram aflitos. Angústia e incerteza tomaram conta. Os filhos adolescentes, o que seria deles? Até a pouco tiveram a glória de viver no paraíso! E agora? Começava uma luta, implacável e sangrenta.
Independentemente de qualquer raça, dentro de uma guerra todos os homens se tornam cruéis.
Terrível invasão alemã! Subiram ao sótão, abriram a grande janela e com a baioneta cortaram os sacos de trigo, milho, despejando tudo no pátio onde estavam os cavalos soltos. Os alimentos misturavam-se com a terra molhada, um lamaçal difícil de descrever.
As filhas enterraram no quintal o pouco enxoval que tinham. Os avós, escondidos no porão.
Os soldados escalaram as moças ao plantio de trigo e batatas; sempre guarnecidas pelos guardas de baioneta em punho.
Era tanta fome... Clementina plantava duas covas e uma batata escondia no avental para os avós. Um guarda viu e achou uma batatinha no avental. Pôs a baioneta na cabeça de Clementina e falou:
- Da próxima vez você será punida. Não terá perdão.
À noite, ao acalmar o fogo cruzado, silenciosos iam procurar cavalos mortos pelo combate. Tiravam o fígado para alimento.
Dias intermináveis...
Na penumbra, ao anoitecer, Clementina e uma amiga foram à procura de mochilas dos soldados tombados, dentro sempre havia algum alimento. Em silêncio caminhavam. A amiga, na frente. Em uma subida, o silêncio mortal foi quebrado por uma rajada de metralhadora. A cabeça da amiga rolou no chão. Clementina foi rastejando para casa.
Por ganância dos senhores das guerras é que essas batalhas eram mantidas: poder pelas terras sempre foi assim desde o princípio da humanidade.
Os dias se arrastavam... Os confrontos constantes.
O rio Piave em seu percurso borbulhava um líquido viçoso de cor púrpura. Cenas extremamente dolorosas.
Acabou a Primeira Guerra Mundial.
Tudo destruído.
Senhor Boscarin, homem imperativo, falou aos filhos:
- Vamos ao Brasil.
Seguiram ao porto. Navio, lotado.
Dias mais tarde, embarcaram no Principessa Mafalda e iniciaram a viagem no embalo das ondas do mar imenso.
Um mês, aportaram em Santos. E a trágica notícia: o primeiro navio havia naufragado.
Orientada, a família Boscarin foi enviada para Campo do Tenente, no Paraná.
Clementina, vinte anos, casou com João Batista. Ema casou e foi a São Paulo. Gelindo e Ricieri casaram e foram ao Rio Grande do Sul.
Pai Boscarin decidiu de voltar à Europa. Comunicou-se com a condessa e partiram pai, mãe, Cândida e Luiza.
Chegando à Itália, palácio fechado: tinha ocorrido o pior.
Declarada a Segunda Guerra Mundial. Extremamente cruel.
Pai e mãe não sobreviveram. Cândida, casada com um piloto de avião, tinha uma filha de dois anos. O jovem piloto foi abatido pelo inimigo. A menina, num dos bombardeiros se abrigou com a vizinha. Onde Cândida estava ninguém sobreviveu.
Luiza era enfermeira, testemunha de muitas cenas desumanas.
Uma mãe nos dias de dar à luz ouviu o alerta das sirenes e depressa chamou os filhos para correrem ao esconderijo. Passou pelo varal cheio de roupas e recolheu algumas. Ao correr foi atingida por uma rajada de tiros. Caída, agonizando o neném nasceu. Puxou-o ao peito. Último suspiro.
Cenas jamais esquecidas. Tristemente lembradas.
Luiza, com tantas desilusões, se dedicou aos feridos nos campos de combate.
Neve... frio... muito frio... morreu tuberculosa.
O triste fim dos que voltaram.
Pai Boscarin não fosse tão imperativo, teriam vivido no Brasil uma vida menos sombria.

 

 

 
 
Publicado no Livro "Contos que copiam os sonhos" - Edição 2018 - Novembro de 2018