Júlio César Freid'Sil
Arraial do Cabo / RJ

 

Pôr do sol 

        

 

         Caminhar pela orla como quem busca um nada. Formatar a mente dos tropeços e dar o recomeço como quem acaba de ser parido. Sim, me deram a luz. Eu posso sentir n'alma esse brilho intenso de bem querer e afago nas minhas incertezas.
         Isento da culpa de ter falhado na fatídica quimera de ser feliz, percebo a brisa beijar-me a face, o corrimão oferecer-me sua base e o fim de tarde tornar-se um espetáculo sublime de se ver.
         Realmente é um abono, primeiro dia de um outono que quer me resgatar. Mostrar que até vale a pena, quando a alma não está pequena e anseia amar. Um suspiro profundo, olhando esse mar, parece um mundo. E está sereno aos meus pés. Olhando por esse viés faz sentido, pois tenho sentido bem dentro de mim, algo que não quer meu fim, que não quer agonizar com a decepção, com a desilusão. Não!
         Parece que esse pôr do sol quer me envolver, fazer-me ver além do horizonte. Uma chance, quem sabe de um lance, tudo se transforma. Ganha outra forma, desabrocha um botão...mas aí já será uma outra estação.

 

 
Poema publicado no livro "Contos de Outono" - Maio de 2018