Andréa Geane Chaves de Mendonça Moraes
Fortaleza / CE

 

Velos de Outono 

        

 

         

Era uma vez, quatro irmãos, conhecidos como os senhores das estações.
Primavera, por onde passava deixava sua marca através de uma temperatura agradável e um perfume reflorescido. Suas pegadas eram assinaladas por esplêndidas flores. A bela Primavera sempre presidia os prazeres do amor, aflorava a criação dos poetas e a beleza das donzelas.
Seu irmão, Verão, despertava a paixão, tanto em homens como em mulheres, ele era irresistível, orgulhoso e encantado por sua própria natureza. A sua presença deixa os dias mais longos e as noites com temperaturas elevadíssimas.
Já Outono, o símbolo do imediatismo, era alto, moreno e sagaz. Os dias com ele eram mais curtos e frescos, as frutas ficam maduras e começam a cair. As folhas das árvores começavam a mudar de cor, ficando com um amarelo belíssimo. 
E Inverno era a razão, era o conhecimento, era a dor, era o justo. Tinha o poder supremo da severidade e das responsabilidades. E por onde passava deixava tudo mais extenso e misterioso.
Os quatros se revezavam entre os dias, os lugares, os dias e as noites. E entre esse revezamento, o outono se sentia muitas vezes só, por não fazer parte de todos e nem de determinados lugares.
Então resolveu ele quebrar as regras. Dedicou o seu tempo ocioso a criação. E algum tempo depois, eis que ela estava pronta.
A princípio, ele se vangloriou com tal beleza, sua criação era o próprio outono, e ele a chamou de “Velos de Outono” Sua cabeleira era cheia tinham o tom avermelhado com alaranjado semelhantes folhas de outono ao ar livre. Assim com o seu criador, ela sofria com a sensibilidade da luz e também trazia na hereditariedade o gosto pela solidão.
O senhor Outono a apreciou o quanto pôde. Sofreu rejeição pelos irmãos após a revelação de seu engenho, mas depois saboreou a aceitação de todos, pois a “Velos de Outono”, possuía em sua origem as principais característica de seu criador, mas também trazia predicados dos tios.
E como não amá-la? A menina de cabelos de outono era adornada por uma casca tênue e totalmente branca, a pele quase translúcida era em homenagem ao tio, o senhor Inverno. O pai teve uma preocupação com a sua cria -  ela não seria fria e sua e ascensão invernal, seria apenas introspectiva, tranquila e serena.
Uma placidez que transcenderia além do seu ser olhar, reflorescendo com um verde que se iluminaria diante do luar do sol. E com um sorriso ensolarado e meigo, o qual estava predestinado a aquecer, a alegrar e a amar.
Um dia, Velos de Outono resolver seguir seu caminho.
Abraçou seu destino como uma folha de outono permitindo-se cair do seu tronco existencial, e voou livremente, experimentando e se perdendo no desconhecido até pousar nas folhagens secas do perigo, nas areias quentes do renascer, nas pedras gélidas do saber, e no aroma das cores e da vida – ela precisava e necessitava se perder para se achar.
E mais uma vez, como uma folha, ela percorreu os quatro cantos do mundo guiada por uma melodia angelical, permeou por horas, dias e dias e se fez presente em todas as estações. De alguma forma aquecendo aonde era frio, esfriando onde estava quente, levando luz aonde existia a escuridão e beleza, aonde jaz a vida.
Velos de Outono presenciou muita dor, fome, miséria e tristeza, mas nas oportunidades que teve, ela sentiu o amor, carinho, fartura, risos, e muita alegria no olhar dos pequeninos inocentes. Após sua jornada, ela resolveu voltar...  Sua personalidade agora estava mais madura e seus questionamentos fundáveis – E o porquê de tanta desigualdade entre os homens fora seu ponto de partida.
- O porquê de tanto sofrimento? O porquê de tanto frio e mortes? O porquê de tanto calor e mortes? O porquê de tantos lugares sujos e sem uma vida? Porque tudo era de mais ou de menos? – Ela queria saber.
E diante dos senhores das estações, após expor seus "porquês" ela sentou e aguardou a chegada de Outono que transformado em redemoinho tirou tudo do lugar, e quando se deparou com Velos de Outono e seus irmãos metaforizado, seu coração esmoreceu.
- Devemos seguir uma ordem – disse Inverno com sua autoridade, olhando para Outono. Tudo tem sua ordem!
- Nascemos para fazer o que fazemos nem mais nem menos – sussurrou o Verão.
- Essa é ordem do universo – completou Primavera.
- Tudo é o que é! – frisou o Inverno.
- Mas eu estou aqui! – questionou a menina.
- Como eu disse, tudo é o que é! – repetiu o Inverno.
- Você estar aqui por um motivo, descubra sua missão e vá fazer o que você veio fazer – finalizou Outono.
Velos de Outono sabia em seu íntimo que ali não era mais o seu lugar. Tudo se tornara pequeno demais. Ela precisava alçar voo e se redescobrir como ser único.

 

 
Poema publicado no livro "Contos de Outono" - Maio de 2018