Neri França Fornari Bocchese
Pato Branco / PR

 

 

Uma sexta-feira

 

        

 

Um final de semana nem sempre traz sinal de descanso.
Há muita coisa para se pôr em ordem.  Arrumação da casa, guardar o que é possível. Pôr fora ou para reciclar os jornais da semana, as caixinhas descartáveis. Como se ajunta coisa em uma residência em poucos dias. Molhar as flores, tirar os galhinhos secos. Não se esquecer do adubo. 
Sábado à noite ir a igreja agradecer o Senhor da Vida pelas benesses recebidas. Pedir proteção para a próxima semana.
Sonhar com o churrasco de domingo. O cheiro da carne assada. O braseiro com suas chamas, muitas vezes elas fazem desenhos eróticos, levando a imaginação sensual para recônditos solitários. Outras vezes produzem formas com dançarinos especiais. 
O fogo que já foi a sobrevivência dos primeiros homens, continua a encantar. Continua a agrupar como em outros tempos os mesmos seres humanos. O calor das primeiras fogueiras, mais tarde com o fogo de chão, hoje com o brasido das churrasqueiras. 
Trazendo o encontro com os filhos, com os netos e as noras, sempre um renovar da própria vida. Sempre um encontro prazeroso.
Principalmente o sábado ou o domingo se faz em um dia de receber e fazer visitas. Uma assembléia de amigos.
Presenciar a alegria das crianças que na pouca idade sabem desfrutar do melhor da vida. Conversarem, rirem e serem felizes.
Jogar bola onde não podem. Mesmo que já fossem avisadas mais de um milhão de vezes. Correr pra dentro e pra fora como se tivessem numa área livre e espaçosa. E ainda reclamarem se for chamada a sua atenção.
Brincarem com a Cacau e com a Ária. Elas parecem saber que é domingo e teimam em entrar no porão amigo, ponto de encontro da família ao redor da mesa e do fogo aceso. Para alguns salão de festa, para quem vem do Sul, da casa é o porão. 
Domingo sempre foi um dia abençoado. Por isso é até há uma Ordem do Criador: “Guardar esse dia”.
No almoço domingueiro não pode faltar a maionese e um pedaço de cuca. Nas famílias, onde se gosta de doce, sempre há uma sobremesa especial, o sagu preferido de muita gente. Nos encontros sempre é o primeiro a terminar. A magia do vinho aguça o paladar e o bem viver.
Ambrosia, também é bem vinda, foi um doce trazido pelos portugueses, o manjar dos deuses, hoje pertence ao paladar brasileiro, principalmente no Rio Grande do Sul. 
Por a conversa da semana em dia. Aparar as arestas que aconteceram durante a semana. Planejar os próximos encontros.
O chimarrão circula de mão em mão. Na cuia de um porongo bonito, feito antes mesmo de acender o fogo na churrasqueira.
Uma caipirinha preparada no capricho. Bebida nascida no Brasil, em São Paulo, entre os fazendeiros, hoje pertence ao gosto nacional, e  apreciada no mundo inteiro. Como nem todos os países têm o nosso limão é servida também com a saborosa lima. Adoçada com mel ou açúcar. Uma delicia bebericada por todos no mesmo copo.
 Na enorme mesa todos se sentam e se alimentam com o churrasco preparado com muito carinho, passado na farinha de mandioca ou ela, mais elaborada como uma deliciosa farofa. Outra iguaria genuinamente brasileira já que a mandioca é nativa dessas paragens. Herança dos indígenas, que foram os primeiros cultivadores da espécie.
O churrasco, também uma das boas heranças dos índios Charruas, faziam eles uma valeta, onde assavam a carne de caça. O espeto era feito com galhos novos de árvores. Saboreavam a delicia e bem alimentados partiam para outros afazeres.
Antes de irem embora, cobriam o braseiro para o fogo não se espalhar pelo mato. Tinham a sabedoria própria de grandes homens.
A erva-mate foi utilizada pelos índios Guaranis. O chimarrão, o sapeco das ervateiras e canchear a erva no pilão. 
O chimarrão já foi proibido pelos Jesuítas que  tiveram de voltar atrás e liberá-lo,  mais tarde ainda tendo que abençoá-lo.
Depois do almoço uma sesta na rede. Também herança indígena, a rede também pode ser benéfica para quem sofre com dores nas costas. O seu embalo lembra a gestação e traz prazer enorme acalma a alma cansada dos trabalhos da semana. Preparando-a para as próximas atividades.
No meio da tarde uma boa roda de chimarrão com pipoca doce ou salgada. Outra herança deixada pelos nossos indígenas.
Colocavam os grãos de milho numa panela de barro com areia quente e estes estouravam ou então  jogavam eles direto no fogo.
Assim num dia em que quase que tudo o que foi feito e servido, nos traz a lembrança daquilo que nossos antepassados indígenas faziam, termina-se descanso, o bem-vindo dia de domingo. O dia do descanso. 
E, fica-se à espera de outro final de semana. Ainda há quem diga:
- Os índios eram selvagens e preguiçosos. Santa ignorância ou maldosa língua carregada de preconceitos. Mas desfrutando com prazer do legado que eles nos deixaram.
E, daí como ficamos?   

 

 

 
 
Poema publicado no livro "E daí?... Como ficamos?..." - Edição 2019 - Janeiro de 2020