Ana Antônia Farias Miranda
Belém / PA

 

 

O céu que é céu

 

  

Quando eu era adolescente, pensava que aquilo que eu sonhava, era exclusivo meu; que só eu queria aquilo e ninguém mais. Eu também pensava que realizar um sonho seria menos sofrido. 
Meu Deus...! Eu descobri que sofrer também não é exclusivo. Sofrer por alguma coisa é algo presente nas nossas vidas. Você poderá até me chamar de louca com o que vou dizer, mas...sofrer é bom...
É bom quando lembramos que sofremos e que depois passou.
Eu saí da minha casa quando acabara de completar 16 anos. Chorei por causa disso até os 30. Quase ninguém sabe. Eu passava cada minuto da minha vida pensando que eu ficaria meses, anos perdendo um abraço de mãe, um sorriso de pai, conversas com irmãos. O meu conflito era interno. Lutei cada segundo pra que meu sonho fosse superior a tudo isso. Lutei cada minuto pra que um dia eu me sentisse plena. Quase ninguém viu...
Meu choro era calado, era sentido. Era escondido; dentro do banheiro, debaixo do lençol em plena madrugada...
Eu chegava na escola e olhava cada rosto naquela sala e imaginava: o fulano ali vai sair daqui e ir pra casa dele. Provavelmente irá chegar e a mãe lhe dará um abraço. Eu não sei se isso realmente acontecia, mas esses pensamentos corroíam minha alma. 
Quase ninguém viu isso...estava dentro de mim. Eu estava longe...longe e sem celular, sem whatsapp, nem em sonho uma chamada de vídeo...
A gente sofre longe da família. A gente sofre por um sonho. Moisés viveu essa dor por duas vezes. Primeiro quando teve que fugir do Egito deixando “mães”, irmãos e amigos; depois quando voltou ao Egito e teve que deixar a mulher e os filhos em Midiã. 
Enquanto estamos fora, passamos a contar os dias para que chegue aquele em que iremos retornar, mesmo que por um curto período, mas que é saboroso, é inexplicável a sensação de poder dar um cheiro no pai, um cheiro na mãe. E passa tão rápido. Ah meu Deus, como passa rápido!
E lá vem lágrima novamente...
Nesse caminho, aparecem pessoas sem coração, pessoas falsas, pessoas sem caráter nenhum, mas também aquelas que te estendem as mãos e fazem seus dias menos dolorosos...
Gostaria de citar nomes, mas não ouso, pois temo em esquecer alguém e ficar parecendo ingratidão...longe de mim!
O futuro parece longe, mas quando ele chega...hummm...é tão bom ter a sensação de dever cumprido e sonho realizado. Não tem sensação melhor que a de ter realizado o seu sonho e de brinde ter dado orgulho aos seus pais. Ah...eu sinto ainda hoje esse gosto...esse sabor dura a vida toda. 
Arrependimento? Nunca! Jamais!
“Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.”  (Fernando Pessoa)
Temos que passar por tudo isso até chegar ao nosso céu e que céu...eu amo o meu. Ele foi conquistado...ninguém jamais me tirará! E o seu também não...conquiste o seu céu! Ele parece longe, mas está aqui do nosso lado, só temos que lutar diariamente para conquistá-lo. Já diz o ditado popular: Deus ajuda a quem cedo madruga!
Não me sinto exemplo de vida pra ninguém, mas posso dizer que sou o retrato vivo de que é possível realizar um sonho! E isso também não é exclusividade minha...

 

 

 

 
 
Poema publicado no Livro de Ouro do Conto Brasileiro - Edição 2018 - Agosto de 2018