Teresa Cristina Cerqueira de Sousa
Piracuruca / PI

 

 

As mentiras de meu avô

 

  

Meu avô costumava caminhar pela velha estação ferroviária, desativada no finalzinho do século passado. O trem funcionara de segunda a sexta-feira e ele matinha esses dias nas atividades físicas. Numa segunda-feira, ele voltou de lá muito exaltado:
- Dentro da estação tem o corpo de um morto. Deve ter morrido agorinha, pois o julguei gemer ainda!
- O quê? O Senhor tem certeza do que diz, pai? - falou minha mãe se assombrando.
Na ocasião, ela amamentava minha irmãzinha de três meses, no que se levantou da cadeira com a menina nos braços, seio de fora. Olhou-me com um semblante de quem pede que não se ouça o que os adultos falam...
- João, vá para seu quarto! - murmurou com voz trêmula.
Entrei de pronto, porém pude ouvir que ela discutia com o velho. Dizia que não entendia como um homem chegava a casa falando essas asneiras na presença de crianças. Notei que ele ficou calado por instantes e que depois manteve a mesma história. Agora explicava que uma das portas da estação estando entreaberta e ele pôde ver os pés da pessoa perfeitamente, embora o restante do corpo estivesse na penumbra. Era uma pessoa sim. Tinha certeza. Mamãe suspirou, como se soubesse que vovô era um caso perdido...
- Papai, eu lhe peço que não espalhe esta história, pois poderá haver obrigação de ter que ir até lá e provar o que diz...
Eu era um menino de nove anos, mas senti que mamãe tinha medo era de vovô ser chamado de mentiroso. Confesso que até gostava de ouvi-lo contar de quando namorava. Minha avó, já falecida, tinha casado com ele aos quatorze anos. Eu considerava isso um fato incrível e um tanto absurdo. Bem, coisas da época, como ele dizia.
Quando meu pai chegou do mercado, ainda antes do café da manhã, mamãe lhe contou de meu avô e do que este dizia ter visto. Como meu pai concordava que vovô fantasiava, mas que devia ter um fundo de verdade em suas histórias prontificou-se a irem até à estação. Comentou que alguém podia estar necessitando de ajuda. E foram.
Por volta do meio-dia, quando retornei da escola, contaram-me que se tratava do vigia. O homem realmente estava no chão, pois tinha sofrido de uma queda de pressão arterial. E minha mãe se encontrava era com um sorriso gostoso ao me dizer que o mal do mentiroso é que ninguém acredita quando diz a verdade.
- O certo é que teu pai foi verificar com teu avô, falou-me ela.
Eu é que cresci querendo era acreditar em tudo o que ele dizia... Não custava nada, pois contava com tanta tenacidade! E durante todo o dia eu ergui o peito e disse para os meninos da rua quando falaram que o vigia da estação fora encontrado desmaiado...
-... e foi o meu avô que salvou a vida dele!

 

 

 

 
 
Poema publicado no Livro de Ouro do Conto Brasileiro - Edição 2018 - Agosto de 2018