Rozelene Furtado de Lima
Teresópolis / RJ

 

 

Sem tempo para chorar

 

  

Carlos Elias, um menino de dez anos, muito curioso e atento a tudo. O amor pela escola em que estudava era o foco principal dele. Cumpria os deveres de aluno com dedicação.
Certo dia, chegando a casa fora do horário normal, por qualquer razão faltou água na escola e os alunos foram dispensados mais cedo. A mãe não estava dentro de casa, então foi procurá-la na área de serviço. Um varandão grande e coberto que ficava na parte de baixo da casa e nos fundos. Ficou apreensivo com que viu, a mãe lavava roupas no tanque, chorava copiosamente com soluçantes gemidos e repetia em tom alto: - morreu, morreu... O menino nunca tinha visto uma cena tão deprimente. Não teve coragem de interromper aquele movimento de esfregar a roupa com sabão e lágrimas. Carlos Elias queria avisar que tinha combinado com os amigos de jogar futebol no campinho da praça. Sem ser visto, saiu devagarinho pensando que quando ele voltasse ela estaria mais calma. Entre a área de serviço e a casa encontrou uma vizinha, a Betinha que veio conversar com a mãe dele. Ela perguntou: - Bilá está aí. Ele respondeu com o rosto contraído pela preocupação com a mãe, e com voz entrecortada e baixa: - a senhora sabe quem morreu?  Ela só entendeu a palavra “morreu” e vendo o rosto do menino contraído pela tristeza, perguntou: - Como foi isto, onde ela está? No tanque, respondeu ele com voz embargada. Ela não pensou duas vezes, fez meia volta e saiu correndo pelo portão. Bateu na casa da primeira vizinha e deu a notícia – Bilá morreu afogada no tanque. O quê?  E a notícia foi passando de bocas a ouvidos e cada vez acrescida de uma palavra. A última pessoa que ouviu, em menos de quinze minutos: - Bilá escorregou no sabão e morreu afogada no tanque e ninguém pode tirar ela de lá e nem se aproximar antes da polícia chegar.
Pode-se imaginar que reboliço aconteceu na vizinhança. Uma colheu umas margaridas no jardim e veio correndo para o portão da Bilá; outra chegou chorando quase aos gritos; uma delas fez uma coroa de flores com os cipós que tinha no muro, e Paulinha pegou um terço e veio rezar. E em poucos minutos tinha uma multidão no portão de Bilá.
O marido de Bilá tinha saído para comprar uma ferramenta para terminar um serviço de marcenaria, quando viu aquela multidão a sua porta, abismado perguntou: - Que é que está acontecendo aqui? A dona da verdade, a Betinha, falou sem piedade e sem dó: - Sua mulher morreu afogada no tanque. Ele balançou, bambeou, botou a mão na cabeça e caiu.
Sandra Léa, uma moradora da rua, com quase quarenta anos, solteira por ter sido abandonada pelo namorado e nunca mais conseguiu arranjar outro para amar, viu na morte de Bilá uma grande oportunidade de casar. Pensava ela: - Chegou a minha vez, tenho que agir agora, muito rápido, ele vai precisar de alguém que cuide da casa e das crianças e esse alguém sou eu. Pegou um bolo que já estava pronto e correu para casa de Bilá para cuidar dos quatro filhos do pretenso viúvo e noivo.
 Aquela que levou o terço, rezava pela alma da defunta e todos respondiam com consternação e cochichos. O cenário era de muita tristeza e angústia. Sandra Léa era a única que por dentro explodia de felicidade imaginando o vestido de noiva com longo véu, a igreja enfeitada, a música Ave-Maria na hora da bênção das alianças e então ela chorou de emoção.
Enquanto isso, Bilá acabou de lavar a roupa, secou as mãos e as lágrimas, e como não tinha usado o avental tirou a blusa e saia molhadas, apanhou um lençol que estava no varal,  colocou em volta dos ombros e o pano branco cobria até aos pés. Caminhou para a porta da casa trocar de roupa e fazer um café.
O panorama era bem interessante: - Sandra Léa sentada no sofá ao lado do viúvo passava a mão na cabeça dele consolando, as crianças choravam e do lado de fora o som triste da reza e a sirene de um carro de polícia chegando. O circo estava armado. Bilá foi chegando, não entendendo nada, gritou: - Que é que está acontecendo aqui? Quando viram a Bilá, envolta no lençol branco, foi correria e tropeções com gritos: - a alma de Bilá! o fantasma de Bilá! Como tempestade repentina flores foram jogadas pelo chão, um bafafá de medo do fantasma de Bilá que iria levar alguém com ela, a que ficasse por último no local.
Quando ela entrou na sala e viu a Sandra Léa toda derretida para cima do marido, foram tapas e puxões de cabelo. A solteirona nunca correu tanto na vida.
O policial entrou em casa de Bilá perguntando onde ficava o tanque com a morta.
Não sei que morta é essa nem estou entendendo nada, disse Bilá. - O compadre morreu há mais de um mês, e eu não tive tempo de chorar a morte dele. Aproveitei que estava sozinha fui lavar a roupa e também as tristezas da alma e chorei muito e bem à vontade.

 

 

 

 
 
Poema publicado no Livro de Ouro do Conto Brasileiro - Edição 2018 - Agosto de 2018