Maria José Zanini Tauil
Rio de Janeiro / RJ

 

 

Ébrio de amor

 

  

Para o apaixonado, a vida é uma taça, pois nela, sente o coração cantando e a alma   vencida por estranha libertação . É um sonhador eterno, de sonhos delirantes, onde o amor conduz ao paraíso, e, paradoxalmente, o leva ao inferno. E ele esvazia essa grande taça, numa sede de ardência e frescura, buscando um néctar bendito...ou tóxico condutor de desgraça.
Tão logo a garganta é molhada, a primeira lágrima é vertida. Ela, origem de ternura, de uma quinta - essência, trazendo de volta à mente, os beijos perdidos, vindos de um amor que está distante.
E essa primeira golada parece divina e doce, possuindo tal suavidade, que, às vezes, ele julga ser  o próprio antídoto para a infelicidade. Tantas  desilusões  na vida foram vinhos amargos e esquisitos. Até pareciam, em determinados momentos,  licores mágicos, feitos das uvas claras do céu.  Ah, esse vinho  sorvido nas neuroses do gozo por quem ama, um tipo de vinho que põe o coração em chamas e o consome por inteiro! Esse é um vinho que borbulha estrelas e que cega por estradas duvidosas! Por quê?  Porque no segundo trago, é possível sorver saudades e mágoas, que podem arrastá-lo por desenganos eternizados, que embargam a voz e marejam os olhos.
Depois de sorver o líquido  tantas e tantas vezes, percebe, triste, que para o tédio, não encontrou o remédio, pois a angústia transforma seu peito em enorme ferida. Sente-se, então, mártir da dor e vítima do mundo e deseja erguer o derradeiro brinde, num festim eucarístico de morte.
Mesmo vencido, considera-se um ébrio romântico e realizado, submisso e rendido a esse amor enlouquecido, pois o coração, embora dolorido, vibra, e a vida, para ele, sempre será uma grande taça, onde passa  os anos bêbado de sonhos.
 Só que nesse transe, esquece que o maior dos seus sonhos resultou em traição e desenganos.

 

 
 
Poema publicado no Livro de Ouro do Conto Brasileiro - Edição 2018 - Agosto de 2018