Letícia Alvarez Ucha
Porto Alegre / RS

 

 

Máscaras e vidas

 

 

João Santos, esse era o nome dos dois. Nasceram no mesmo dia e hospital. Suas mães tinham o mesmo nome: Maria. Ambos eram de pais desconhecidos. Estudaram no mesmo colégio. Moravam na mesma vila. Jogavam no mesmo time. Até a fisionomia era parecida: estatura mediana e cabelos ondulados. Não eram parentes mas havia quem jurasse que fossem.
O tempo foi passando até que chegaram a idade adulta. Algumas semelhanças continuaram mas o caráter era totalmente diferente.
Enquanto um tornou-se um trabalhador honesto, o outro vivia de trambiques até juntar- se a um bando. Seu nome vivia nas colunas policiais, o que num primeiro momento causava constrangimento a seu homônimo.
O João do Bem como era conhecido por alguns tinha um irmão deficiente, o garoto Ismael.
Um dia durante uma perseguição policial o João meliante foi refugiar-se na casa de seu xará. Durante o tiroteio o menino foi atingido. Levado às pressas ao hospital pelos próprios brigadianos não resistiu e morreu  Enquanto isso, João do Mal - o bandido - conseguiu escapar.
Um vazio e uma dor enorme surgiram para seu irmão João que jurou que vingança.  Seu Zeca, jornaleiro, sempre consolava o amigo dizendo:
- Não se preocupe: a vida tratará de fazer justiça! É como aquele ditado: “A vida é um restaurante, ninguém sai sem pagar a conta”.
Anos passaram. João do Bem foi trabalhar em outra cidade na outra ponta do país. Era época de Páscoa e conseguiu um bico andando fantasiado de Coelho distribuindo chocolates.
Foi quando avistou seu desafeto: João do Mal entrando na loja de chocolates Este bem-vestido, casado e  usando outra identidade. Em seu cartão de crédito constava seu novo nome agora era Roberto Strauss.
João sentiu um mal-estar e a vontade foi de reagir. Aproximou-se de “Roberto” e deu chocolates ao seu filho. Ouviu este comentar que passariam a semana da Páscoa na cidade.
João voltou para casa e elaborou um plano: e levou uma faca para o trabalho no dia seguinte.
A loja de chocolates ficava na praça central da cidade serrana. Quando avistou o desafeto, João do Bem passou a segui-lo. O que causou estranheza ao gerente da loja porque o Coelho não poderia afastar-se da entrada da loja.
Roger, o gerente, o chamou mas ele continuava a segui-lo em passos rápidos. O outro notou e apressou o passo. Algo estranho estava acontecendo. Dobrou numa rua deserta. João tirou a faca de dentro da fantasia de coelho: fixou o olhar em Roberto que não estava entendendo nada. Quando ia desferir um golpe, desistiu. Antes de dobrar a esquina, tirou a máscara e olhou fixo para o outro. Este não teve reação, mas o reconheceu.
No dia seguinte haveria uma corrida de cavalos. Roberto foi apostar, e estava atrasado. Correu até a fila de apostas do hipódromo e resvalou no chão que acabara de ser limpo. Bateu com a cabeça e morreu. Uma morte tola para a vida estúpida que levou.

 

 
 
Poema publicado no Livro de Ouro do Conto Brasileiro - Edição 2018 - Agosto de 2018