Efson Lima
Salvador / BA

 

 

Adeus

 

 

Tarde de sexta-feira, parto em direção ao Aeroporto de Salvador. No momento de fazer o checki -in, termo chique para designar a confirmação do embarque do passageiro e de seus dados, a moça me informa que houve sobrevendas de passagens. Palavreado para esconder overbooking - expressão usada para designar excesso de reservas.
Overbooking foi termo corrente no fim de um ano aqui no Brasil, onde centenas de famílias passaram o Natal nos nossos aeroportos. Como se popularizou, agora, recorrem ao sobrevendas. Facilita a enganação! Foi a maneira de humilhar a classe média, os trabalhadores... foi sofrível ver as cenas nos telejornais. Senti na pele a ganância de determinadas companhias aéreas ao tentar ir de Salvador para Petrolina, em 29 de junho de 2018. Isto me fez recorrer ao túnel do tempo.
Mas, eu escrevo mesmo é para registrar uma paisagem do sertão.  Lembrar de como o Velho Chico luta para sobreviver. Chico que diuturnamente oferece água, comida para sua população. Proporciona luz, energia para parte do país. Velho Chico, não nos abandone. Não saía de cena, por favor! Resista! Vamos juntos superar esse momento. 
Nas suas águas correm a Mãe D’água, se esconde o Nego D’água... suas águas vão diminuindo, mas nosso encantamento por ti continua acrescer. Crescem também seus mitos... sei que não está fácil. Não mesmo! Vi você falando comigo. Gemendo!
É meu amigo, mesmo você sofrendo, continua encantando a todos que chegam.Cortar-te via a ponte que separa Petrolina – Juazeiro dar uma sensação boa. Imagina o dia em que te cortaremos sem ver água sob a ponte.  Será tão triste! Vejo você agoniado, suspirando com ajuda de aparelhos. Que pena!
Por favor, resista! Como nós aqui vamos resistindo as mazelas dos governantes, as mazelas das pessoas, as mazelas humanas. Mesmo assim, não desista de nós, São Francisco. Juntos, Chico, podemos fazer um novo amanhã, mesmo que o dia de hoje pareça ser sombrio. E o amanhã perverso. Haverá de ter sombra de esperança. Haverá luzes! Que não nos falte energia para continuar permanentemente ligado para te defender.
É meu Velho Chico, eu que defendi a sua transposição, agora, tenho estado a refletir. Até que ponto não ajudei a agravar sua situação? Você que tanto nos ensinou. Tanto que resiste para correr por mais de dois mil quilômetros, que corre alimentando vidas. Tanto que luta para correr em si vidas.  Adeus, meu rio-mar. Adeus meu nacional. Não! Não direi Adeus! Por favor, não aceite meu Adeus!

 

 
 
Poema publicado no Livro de Ouro do Conto Brasileiro - Edição 2018 - Agosto de 2018