Karla Matos Ferreira
Guapimirim / RJ

 

 

A lenda esquecida do Túnel que Chora



Saudades de Conservatória! A Conservatória tão charmosa e romântica! Por suas ruas é possível ver nas portas de cada casa plaquinhas com nomes de músicas e de seus compositores. Logo se percebe que as mais belas portas que se abrem são as dos corações dos que passam por aquele lindo lugar!
Mas existe certo túnel, escavado por escravos no final do século XIX, que abriu caminho para a linha férrea por onde passou a Maria Fumaça com os preciosos grãos de muitos cafezais!
Em Santo Antônio de Rio Bonito, hoje Conservatória, na época da abertura dessa passagem na rocha, havia uma mocinha de belos olhos escuros e cabelos de muitas cores. Cada um de seus fios de cabelos tinha um tom diferente: preto, loiro, laranja castanho. Aquela menina, Terezinha, sequer imaginava que sua cabeleira mudava de cor ao nascer do sol, tornando-se alaranjada; avermelhada com o sol a pino; e delicadamente dourada quando o sol se punha nas montanhas.
Festa bonita, muita música e quitutes gostosos no dia da inauguração da estação de trem naquele vilarejo! Terezinha usava um bonito vestido amarelo, no auge de seus 18 anos! Era professora de música. Estava sob um flamboyant vermelho, de onde conduzia com maestria seus alunos, futuros violonistas como ela! Era tão graciosa a tocar seu violão, acompanhada pelas crianças muito bem ensaiadas! Mas o sol, passando pelas flores daquela árvore, tornava Terezinha reluzente! E o jovem maquinista apaixonou-se por ela!
Como em toda história de amor, ele soube conquistá-la, dizendo-se encantado por sua beleza, por seu sorriso tímido, sua voz delicada e pela doçura no trato com as crianças! Um casal de namorados especial! Um ano depois, no verão, já faziam planos para o casamento na próxima primavera!
Numa manhã aquele rapaz chegou de trem trazendo uma carta para mostrar à sua noiva. Era uma ordem de transferência! Precisaria ir para uma cidade distante! Ele partiria no final daquela tarde e, naquela mesma noite, iria para seu próximo destino de trabalho! Seria mais bem pago! Era uma oportunidade única para ele! Poderia juntar dinheiro para oferecer-lhe maior conforto e estabilidade! Teriam que adiar o sonho do casamento! Não podia levá-la ainda! Entre muitas lágrimas e pedidos não apreciados de desistência aquela jovem viu seu sonho de amor partir, levando consigo seu coração!
Ao soar o sino da estação, ouviu-se o apito do trem, como um triste suspiro demorado e o maquinista, também com lágrimas nos olhos, gritou que voltaria para buscá-la! A jovem Terezinha correu atrás daquele trem até o final do túnel e por lá ficou a chorar, chorar e chorar!
Toda a manhã Terezinha corria até o fim do túnel para ver o trem chegar antes de todos, na esperança de ver seu maquinista voltando! Por vezes chegavam cartas com promessas de amor eterno e de que em breve voltaria para casar-se com ela e levá-la consigo!
Os meses foram passando, mas as cartas continuavam a chegar! A jovem ainda ia correndo até o túnel e sempre retornava vertendo muitas lágrimas, dia após dia! Por muitas vezes ficava ali dentro solitária aos prantos!
De repente as cartas não chegaram mais! Ninguém sabia informar o que acontecera ao seu noivo!
Os anos passaram... Terezinha não perdia a esperança! Sempre ali, no túnel, pela manhã a esperar e depois a chorar! Ela jamais soube o que houve ao seu maquinista! Já não tocava canções alegres como antes! Eram sempre músicas belíssimas, mas com um quê de melancolia!
Num dia muito chuvoso ninguém a viu passar pela rua! “Onde ela estaria”? “Aonde teria ido”? Os vizinhos e conhecidos preocupados se perguntavam.
De fato, ela havia “embarcado numa viagem silenciosa e sem regresso”! Havia em seu rosto, ainda, uma pequena lágrima. Os cabelos soltos pelo travesseiro ainda eram brilhantes!
A partir desse dia o túnel passou a chorar! Ninguém entendia o motivo! Seriam as águas da chuva que ainda estavam descendo pela montanha? Mas o túnel não parava de chorar!
Começaram a crescer muitas flores nas entradas do túnel! Perceberam que a água que vertia da rocha fazia flores de todas as cores brotarem! A água era ferruginosa. Muita gente começou a dizer que se fosse atingido por uma gotícula na cabeça, ao fazer um pedido, este era atendido, especialmente se fosse um desejo envolvendo a dor de um coração apaixonado!
Mais tarde descobriu-se uma fonte que vertia a água que fazia o túnel “chorar”! Deram-lhe o nome de “Fonte da Saudade”! O Túnel Maria Nossar passou a ser conhecido como “Túnel que Chora”, localizado na “Rua das Flores”!
Conta-se que aqueles que tinham sido alunos da linda professora de música e, com ela aprenderam a executar tantas canções ao violão, começaram a andar por aquelas ruas em belas solaratas! E, à luz do luar, caminhavam em inesquecíveis serestas ou serenatas em memória daquele coração, que de tanto amar, fez até o túnel de pedra chorar!

 


 




Conto publicado no livro "360 roteiros para um destino"
Edição Especial - Abril de 2021

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