Isabel Cristina Silva Vargas
Pelotas / RS

 

Um novo tempo

 

A cidade era Mato Fino. Muito boa de se morar. Cheguei ali recém  formado em advocacia e logo montei meu próprio  escritório. Meus primeiros encontros com Seu Abdon, um dos fundadores da cidade, não foram lá muito promissores. Era um Senhor taciturno, mas eu queria ganhar a sua atenção.
- Por que Mato Fino? - Perguntei-lhe   certa feita - Fui  infeliz em fazer - lhe  tal pergunta.
- E eu que sei ? - Ele retrucou azedo -  Cada pergunta besta, sô. Vai ver é pelo causo de ter o Mato Grosso, né? 
Não fui o único a cair nessa esparrela. O homem  era por  demais  ranzinza e avesso  a qualquer pergunta. Trabalhou  a vida toda numa repartição pública e agora no ócio de aposentado era visto  esporádicas vezes a jogar dominó no centro da cidade ou na frente de sua  casa a balançar - se numa cadeira velha de balanço. Numa tarde  tive   aborrecimentos no trabalho, aventurei - me pela primeira vez  aproximar-me daquele homem solitário. Ele estava como de costume  na frente da casa embalando - se em sua velha cadeira. A curiosidade mandava-me  conhecer aquele homem de poucas palavras ou que na maioria das vezes permanecia  calado. Cumprimentei-o. Ele levantou- se e em passos lentos  entrou e voltou  com uma cadeira, convidando - me a sentar. O vazio trazido pelo tom da voz mostrava   tristeza e insatisfação. Os olhos  arredios emprestavam - lhe um semblante  melancólico e  sombrio. Eu não sabia  por onde avançar a conversa. Mas, lentamente  Seu Abdon foi descontraindo e abandonou aquela característica mal-humorada e carrancuda e eu  aproveitei sua boa companhia, pois  conheci-lhe um outro lado que jamais  imaginei que existisse.  E falou como conheceu o amor  de sua  vida. Dai vinha  tamanha  tristeza.
- Vi Glorinha na delegacia - Disse saudoso –. Eu por razões adversas a essa história e ela por ter sido vítima  de violência doméstica. Apesar  da cara machucada parecia ser jovem. A vida se encarregou de nos aproximar. Dias depois  uma mudança  chegou à minha rua.  E coincidentemente, era Glorinha. Não  demorou e ficamos próximos. O marido  logo descobriu seu paradeiro. As  recorrentes reconciliações  eram sempre um transtorno. Perdi a conta de quantas vezes precisei esconde-la em minha casa. Apesar disso, eu a admirava. Ela era alegre, prestativa,  extrovertida e de bom coração. Mas, o meu  coração me traiu e eu me apaixonei  por ela.  Ansiava por mudanças, buscava tudo  que  era novo, excitante e inesperado.  Um dia Glorinha depois de uma bruta  surra  amanheceu lá  em casa. Juntamos o útil  ao  agradável e passamos  a morar  juntos. Eu cego  de amor e ela  sedenta  de proteção. Eu me entreguei de corpo  e alma aquela paixão. E dela como era de se esperar, não  tive  nada  além  de uma vida de turbulência. Naquela tarde cheguei mais  cedo do trabalho e ela tinha ido embora. Sofri como um cão  sarnento mas, é vida que  segue... O tempo passou e um dia fui surpreendido por ela que me esperava à saída do trabalho. Foi uma alegria  só, tiramos a tarde de folga e passou a contar-me. Depois da última surra,  tomou coragem e denunciou o miserável do marido.- Ele desistiu  de você? - Aquele  lá era maluco, obcecado.  
- Página  virada, acabou - ela  respondeu  animada.
- Não  sei não. O sujeito  é  maluco   você sabe disso, né?
Foi uma tarde  pelos  bons tempos, mas ela estava  mentindo e não demorou para dar prova disso. Sumiu  mais  uma vez e quando  reapareceu  convenceu -me a ir a sua festa de aniversário.
A festa foi regada a tequila, só para os íntimos, em seu AP. Até o tal ex marido aparecer para  estragar tudo e ser arrancado de lá a bordadas pelo porteiro. do prédio. Glorinha segurou a onda e acordamos tarde no dia  seguinte, um nos braços do outro e mortos de ressecados. , G-- Logo fomos, cada um para seu lado e fiquei  de novo sem  notícias dela.  Era uma mulher de fibra, muito guerreira. Porém não  sobreviveu. A luta  foi desigual e com poucas armas, Não  escapou  da fúria do miserável marido. Ela fugiu para São José dos Campos e foi  ser motorista de ônibus, mas ele a encontrou e dessa vez matou-a com cinco tiros . Meu pobre amor... Eu dei cabo dele. Já tô quite com a justiça, mas minha vida  acabou.
E assim lentamente  conquistei  o coração daquele homem  triste  de alma atormentada, mas que  tinha  tanta  coisa  interessante  para  contar. Fomos  grandes  amigos e confidentes dos dias  difíceis. As vezes  ficávamos  horas sem dizer  uma palavra, só o  silêncio ouvindo o nosso interior. Quando fui  tentar  a vida na cidade  grande eu não  soube  mais  de seu Abdon. Só voltei anos  depois quando  perdi  meu  único  filho  num acidente  de carro. Com a vida  destruída  e muito  fragilizado. Vim ansioso  para o ombro  do velho  amigo. Mas, por  ironia  da vida ele se fora  havia  apenas  três  meses. A notícia  da morte  dele  deixou- me  ainda mais arrasado.
Quando  estava  entrando  no  carro  para  retornar à minha  cidade fui abordado.
- Rodrigo é você ? - Perguntou uma senhora aproximando - se. Isso  aqui é  seu. Entregou - me um cartão. Ele  esperou você por todos esses  anos. Completou.
Um  cartão de meu aniversário  do ano seguinte a minha saída  da cidade. 
 Rodrigo:  “Essa vida vai passar rápido. Nada sabemos  do amanhã.
Mas, que os imprevistos possibilitem enriquecer tuas experiências.
Que nenhuma  barreira te impeça de superar  teus limites. Tudo  na vida é  aprendizado. Tudo na vida se supera.” Sábias palavras de um   homem tão  rude. Retomei minha vida e guardaria sua memoria.   Paradoxal, sim,  mas de muita sabedoria. Eu teria  muito  o que  contar para  meu  filho  que  chegaria dali a seis se manas. Agora,  eu sim voltei  tarde  demais.

 

 
 
Publicado no Livro "Seleta de Contos de Autores Premiados" - Edição 2018 - Setembro de 2018