Alberto Magno Ribeiro Montes
Belo Horizonte / MG

 

 

Velório moderno

                

 

            Altas horas da noite, preparando-me para dormir, recebo o telefonema de um grande amigo, comunicando-me o falecimento de um parente dele  e convidando-me para o velório. Com cara de sono, entre bocejos então perguntei: quem finou? Quem o quê?! Quem morreu, eu disse. Ah, foi  um tio meu, o Olorico. De acidente de carro. Era novo ainda. Beirava os cinquenta…mesma idade de minha tia, agora viúva. Será amanhã, pelas 10:00 h. Anotei o endereço e para lá me dirigi no dia seguinte, apesar de detestar eventos dessa natureza, ou seja, tudo aquilo  que se refira a “morte”. Não fosse em consideração à antiga e grande amizade com Pedro (esse o nome de meu amigo), tentaria dar uma desculpa…         
            Logo na chegada me surpreendi com o local: era um Buffet e via-se claramente que estava havendo uma festa lá. Pensei ter errado de lugar, quando vi meu amigo acenando de longe e chamando-me, indicando que era ali mesmo. Pedro estava de camisa branca, com rendinhas, e algumas florzinhas vermelhas, bermuda bege, sandálias marrom e de braços dados com duas morenas de tirar o fôlego, vestidas (melhor seria dizer “desvestidas”), bem à vontade, aliás, como todos que se encontravam no recinto. Parecia mais que estavam num bloco de Carnaval. Eu até esquecera as palavras de consolo que havia decorado para dizer aos familiares e amigos. Passei então a observar com bastante atenção, tudo aquilo que se passava ao redor.
            Primeiramente o local todo decorado: um lindo casarão, estilo Art déco, do início do século passado, na avenida principal, de um dos bairros mais tradicionais da cidade.  Assim que entrei, disse ao meu amigo: você me enganou, hem? O convite era pra uma festa, quis fazer-me uma surpresa. E ele: falei a verdade, é uma cerimônia fúnebre mesmo, só que no estilo moderno. Antigamente o comum era o velório ser triste, com  as pessoas vestidas geralmente de preto, todas comportadinhas, muita choradeira e isso não era bom. Muitos defuntos, se pudessem se expressar, condenariam aquilo, talvez até se sentissem culpados por causarem tamanha tristeza. Por isso hoje, a coisa está mudando e a tendência, a partir de agora, é que o local onde se vela o morto seja sempre de muita descontração e alegria. Venha, você vai gostar! Pra começar, disse meu amigo, vamos à adega, tomar um vinho ou outra bebida à sua escolha. É o local mais movimentado e concorrido daqui. Pelo menos, só os adultos ali podiam frequentar. Homens e mulheres bebendo, contando alto seus casos, alguns até dando risadas. Nada de tristeza e choro. Eu disse que não era muito chegado a vinhos e que preferia um whisky e o “barman” gentilmente ofereceu-me uma carta com várias opções. Se quiser tem cerveja também, vodca, etc, disse ele.
            A próxima sala era onde o morto estava, rodeado de familiares, amigos e alguns “penetras” como era de se esperar, apesar do controle de entrada e saída das pessoas no local. O caixão, grande, acolchoado, com ar condicionado, um visor de vidro na tampa e até sirene de alarme de incêndio. Coisa de americano, disse-me meu amigo, rindo. Dei uma olhada rápida no defunto e o mesmo estava com a cara numa serenidade de dar inveja. Todo maquiado, bem penteado, roupa esporte e até uma guirlanda de flores em volta do pescoço. Parecia o mais feliz dos mortais (sic). E eu cada vez mais estupefato! Confesso que já estava até começando a gostar daquilo. Nisso passa um garçom oferecendo mais bebidas aos convivas. Eu, no meu segundo copo de whisky…
            E Pedro falava sem parar: meu tio era muito alegre, gostava muito de viver e não queria ninguém triste quando ele morresse. Foi ideia dele mesmo essa festa. Veja a felicidade estampada em seu rosto…dizia meu amigo. Ele costumava dizer que em vida, nem sempre temos o poder de escolher só os momentos felizes, mas que na morte sim, pois ela é um momento imutável, definitivo… E finalizava dizendo que a  felicidade advinda dela, perdurava.
            Fui apresentado a várias pessoas. Notei que quase todas já estavam bastante alteradas, devido ao efeito de bebidas alcoólicas. Rindo alto e alguns até contando umas piadinhas. Ah, tinha também salgadinhos dos mais diversos tipos (delícia!). Tudo muito fino, coisa de primeira…
            Após as apresentações dos parentes, amigos, conhecidos e desconhecidos, tudo começava a misturar-se então, em minha cabeça. Mas lembro-me bem que a viúva,  Filomena, parecia que estava numa festa de casamento. Toda chique, com tantos apetrechos e joias, tanta maquiagem, que estava até bonitona (ou seria efeito de meu quinto whisky?).
            De repente, ouviu-se uma música vindo de longe e ficando cada vez mais alta. Era no salão vizinho e todos correram pra lá, na maior animação. Começou então o “baile”. As músicas:  forró, samba, gafieira e até mesmo funk, a pedido de alguns…
            Imediatamente todos se soltaram ainda mais e sob uma chuva de confete e serpentina (isso mesmo, nada de pétalas de rosas), todos caíram na dança, inclusive eu. Então aparece o Leocádio,  vizinho do Olorico (o morto),  abraçado com Filomena. Ambos cantavam alegremente e já saíram dançando um forrozinho que tocava na hora, sob o aplauso dos presentes. Após muito comer e beber com a viúva, era hora de cantar e dançar com ela.
            Lá pelas cinco da tarde, uma linda limousine parou em frente ao Buffet, para recolher o corpo para o cemitério. Poucas pessoas acompanharam o féretro, pois mal se continham em pé, tão bêbadas estavam. Os que foram, mesmo os que possuíam carro,  tiveram que ir de táxi. Não estavam em condições de dirigir, embora alguns insistissem (na verdade, houve até alguns que foram, mesmo nessas condições).
            Ao chegarmos no cemitério, eu já estava tão “alto”, que nem me recordo direito de nada. Só me lembro de, ao despedir-me de meu amigo, agradecer-lhe pelo ótimo dia que tive e de pedir-lhe que não se esquecesse  de convidar-me, para o velório, caso outro parente dele  falecesse e (principalmente) fizesse a despedida naquele Buffet, que já deixou saudade.

 

 

 

 

 
 
Publicado no Livro "Só sei dizer que foi assim..." - Edição 2019 - Julho de 2019