José Faria Nunes
Caçu / GO

 

 

O vulto

 

Compra o jornal e senta-se no banco mais próximo da banca. Na praça do Botafogo, entre a Vila Nova e o setor Universitário, olha para um e outro lado da Anhanguera, avenida que divide os dois bairros e se adentra ao centro da cidade. Do outro lado do córrego contempla a avenida que corta a cidade de leste a oeste.
Um arrepio percorre-lhe o corpo. Sente-se como se uma vertigem o rondasse.
Abre o periódico, lê as chamadas de capa e passa logo ao caderno de classificados. Com a caneta circula os anúncios de emprego que lhe chamam a atenção.
Sonha com os melhores salários mas tem consciência de sua limitação de estudante de ensino médio que se prepara para o vestibular. No interior os pais labutam com a vida de lavrador e diarista doméstica. O filho, arrimo de família, os poupa da notícia da demissão. Prefere aguardar para dar-lhes a notícia do novo emprego.
Com o caderno de classificados na prancheta debaixo do braço pega o coletivo em direção ao centro. Desce na praça do Bandeirante onde, a pé, tem início a peregrinação. À medida que visita os locais marcados no jornal os pés começam a retratar seu despreparo físico. Muito diferente do atleta amador que foi no interior.
Na capital as opções são amplas para uns e restritas para outros. Só agora Goiânia esboça ampliar suas atividades econômicas além da predominante máquina burocrática dos governos estadual e municipal.
Sem saber se pelo cansaço, Jurandir sente novo arrepio a perpassar-lhe a espinha.
Dia após dia a mesma rotina. Pegar o jornal na banca, mas agora nem lê mais as chamadas de capa. Vai direto ao caderno de classificados, onde pesquisa os anúncios, sem o rigor de antes na escolha dos melhores empregos. No momento qualquer coisa serve. O que não pode é continuar desempregado.
Deixa de pegar o coletivo, pois sua reserva financeira está em baixa. Vai a pé para o centro da cidade.
Eis que agora reascende-lhe a esperança ao inscrever-se para um processo seletivo, a realizar-se na mesma manhã.
Inscrição feita e já com fome, atravessa a Goiás e toma um pingado com pão de queijo, uma de suas preferências em lanche. De novo feliz com a esperança do novo emprego. Afinal, não era sem tempo. Em cada local procurado a vaga já estava preenchida ou lhe faltava qualificação para a função.
As provas, relativamente fáceis. Algumas questões para ele sem sentido.
De novo o ânimo. Que ele volte para pegar o resultado na parte da tarde, cujo atendimento será pela ordem de inscrição, cujo número corresponde à respectiva senha.
Jurandir nem vai a seu quartinho de fundos na Vila Nova neste início de tarde. O lanche tomado minutos antes substitui o almoço. Fica por ali mesmo, “de bobeira, fazendo hora” até chegar sua vez.
Senta-se em um banco na ilha da av. Goiás. A paisagem lembra-lhe o tabuleiro de um jogo onde os edifícios de concreto armado são os juízes dos competidores do trânsito e do tráfego.
As personagens automotoras de seu imaginado jogo disputam preferências na pressa de chegar ao pódio. Os pedestres nas calçadas, sempre sem tempo competem consigo mesmas no jogo da vida.
Jurandir exercita o imaginário na tentativa de adivinhar o que passa nas mentes daquele formigueiro humano à sua volta, um universo ao mesmo tempo díspar e semelhante.
Nada mais nota nos arredores, mesmo em sua frente. Olha para dentro de si, absorto entre sonhos e pesadelos. E nesse ínterim acorda de novo para a realidade, quando nova vertigem lhe perpassa o corpo. “O que está ocorrendo de errado comigo?” Incomoda-se.
Eis que percebe um vulto escuro e rápido saltar ante seus olhos. Tenta acompanhá-lo com o olhar, mas o vulto desaparece no ar. Talvez tivesse distraído o suficiente para perdê-lo de vista ou o vulto não passara de sua imaginação.     
O “imaginado” vulto persiste na mente. Seria um gato em de perseguição? Ou um daqueles pombos já familiarizados com o ambiente humano? Lembra-se de que na Praça Cívica pombos comem nas mãos do vigilante que os tratam com estima e zelo.
Outra vez o vulto salta-lhe à frente, agora maior e mais lento. Acompanha-o com o olhar e tem uma visão que o impressiona: trata-se de um animal jamais visto.
Estranha sensação. Sem nada que justifique lembra da fauna da ilha Galápagos, com animais exóticos. A curiosidade o instiga a se atentar mais para a estranha visão. Nem quelônio, nem leão marinho, nenhum bicho encontrado no zoológico da capital e nem visto em livros ou em documentários de TV.
Jurandir mantem o olhar fixo para aquela fantástica visão. Como que se o chamasse, o estranho movimenta a indefinida cabeça.
Ao aceno do fantástico ser Jurandir, como que magnetizado, levanta-se e o segue, calmamente, avenida afora, até chegar à quase desativada estação ferroviária, na praça do Trabalhador. O trem estacionado emite sinal de partida e o monstrinho, agora apressado, como flecha entra em um dos vagões.
Jurandir consulta o bolso onde há algum dinheiro em espécie. Compra um bilhete para Senador Canedo, o primeiro destino do trem, que seguirá para Catalão, no sudeste do Estado.
Senta-se ao lado do fantástico ser, que agora toma forma quase humana e começa a se expressar de forma que Jurandir entende. Ninguém nas proximidades de Jurandir entende nada e sussurram entre si. Prefere dar atenção a seu interlocutor do outro mundo.
Jurandir tem novo arrepio que o faz lembrar que é chegada a hora de ver o resultado do teste para o emprego.

 

 

 

 

 
Conto publicado no livro "Contos Fantásticos" - Junho de 2018