Letícia Alvarez Ucha
Porto Alegre / RS

 

Labirintos

 

No meio da escuridão, Jamile ainda sonolenta avistou um clarão através da janela. Desta vez, o estrondo foi ainda mais forte. Correu para o quarto ao lado e seus irmãos não estavam lá. O restante de sua família já havia sido morta pela guerra. Chegou à cozinha e avistou o caçula machucado com um pedaço do telhado sob sua perna. O outro não resistiu.
Depois de algumas tentativas conseguiu arrastá-lo e saiu correndo pelas ruas de sua cidade que estava em ruínas. Choros, fumaças e buracos pelas ruas. Conseguiu chegar ao hospital.
Seu irmão Ali, foi atendido pelos médicos. O movimento no hospital era grande. Ouviu uma enfermeira dizer que um americano precisava de doação de sangue tipo O negativo. Ficou quieta, mas sabia que este era seu tipo de sanguíneo.
O médico que atendeu seu irmão, aproximou-se e contou a péssima notícia: Ali não resistiu aos ferimentos e faleceu. Jamile sentiu um vazio enorme eu seu peito, ele era seu único familiar sobrevivente durante a longa guerra civil que o país atravessava. Não sabia o que fazer, para onde ir. Se voltasse para casa ela já poderia estar tomada por guerrilheiros ou pelo exército. Muitos inocentes eram visto como terroristas pelo simples fato de serem muçulmanos.
Sentou no sofá e ficou quieta com o olhar perdido. Ao seu lado sentou-se a esposa de John, o soldado que precisava de sangue “O” negativo para sobreviver. Ela contou seu drama à Jamile. Comentou que o incidente aconteceu um dia antes de retornarem ao EUA. Ela trabalhava numa ONG para refugiados. Jamile disse que doaria o sangue, mas com uma condição: ela teria que ser levada ao exterior com eles. Relutante, a mulher aceitou, pois era a única forma de salvar seu marido.
Jamile atravessou a fronteira sem olhar para trás e nunca mais voltou.

 

 

 
Conto publicado no livro "Contos de Outono" - Maio de 2018