Tiago Paradiso de Oliveira Real
São Paulo / SP

 

 

Momento

      

           

Ando de um lado a outro, pensativo. Assistidamente, atento-me aos ponteiros do relógio: oito e trinta e cinco da manhã. O tempo não passa, não passa... Apesar de que eu gostaria que assim continuasse; quem me dera se eu pudesse...
Passei boa parte da madrugada refletindo. Como eu poderia dormir, sentir sono? Exausto, demorei a levantar-me da cama, relutante.
Perante a máquina de café, tomo vagarosa e pausadamente alguns poucos goles dessa bebida; esfriou-se. Repito o café, e um copo d´água na sequência. Respiro fundo. Novamente e mais uma vez, respiro.
Sentei em frente à minha mesa. Não consegui ler qualquer mensagem eletrônica ou mesmo folhear o jornal, o que faço diariamente quase que de maneira automática.
Lembro-me de alguns episódios de minha carreira profissional: estágios, término da graduação, primeiro emprego efetivo. Quantos anos passados! Experiência? Certamente, algumas, mas há momentos que cruzam nossa vida como se fossem a primeira vez.
Certifiquei-me que ele já estava lá. Chamei-o a um recinto reservado, propício para o fato.
Agora, ele e eu, sentados em uma sala. Perguntaram se gostaríamos de um café, uma água. Agradecemos: "Não, muito obrigado!" Volto a meditar.
Tentei, por diversas vezes, modificar esta decisão, que de minha não teve qualquer participação. Nesse caso, sou apenas mero divulgador de uma triste e discordada notícia.
Pode ser que se eu falar de uma só vez, sem rodeios, seja menos doloroso: a ele, para assimilar; e a mim, que não estou nem um pouco satisfeito com isto.
É o momento. Digo: "Trata-se de uma ordem que me fora dirigida; sinto lhe dizer, mas você está demitido.".

 

 
 
Poema publicado no livro "Livro de Ouro do Conto Brasileiro Contemporâneo" - Agosto de 2017