José Anilto dos Anjos
Ribeirão Pires / SP

 

 

Do pó, para o pó

 

Sem saber por que, Vidal entrou na igreja. Sentou-se no último banco e, num gesto automático, sua mão apalpou o bolso da calça, onde estava um pequeno embrulho. Lá na frente, o padre fazia seu sermão. A igreja ouvia em silêncio. Vidal concentrou-se no que dizia o padre:
“Deus é o criador de todas as coisas. Criou o universo, as estrelas, o céu e o inferno. Na Terra, criou o paraíso. E juntando um punhado de pó, cuspiu nele e formou uma argamassa. Com ela esculpiu o homem à sua imagem e semelhança. Mas aquela imagem era inerte, sem vida. Deus então soprou nas narinas do homem e insuflou-lhe a vida e a alma. Deu a ele o paraíso. E para lhe fazer companhia retirou dele uma costela e fez a mulher. Ambos habitavam o paraíso, mas, tentados pela serpente, comeram do fruto proibido, o único que não podiam tocar. Deus, desgostoso com suas criaturas, expulsou-os do paraíso. E para que sentissem o peso do pecado, retirou deles a vida eterna. Deus disse-lhes:
- Do pó viestes, para o pó voltarás. E durante teus dias na terra sobreviverás do pó da terra. Cultivarás a terra e comerás do fruto do teu suor. E terminados os teus dias, ao pó voltarás.”
Vidal não ouviu o resto. Cabisbaixo, saiu da igreja. Sua mão protegia o pacote em seu bolso. Em sua mente, palavras se repetiam:
“Do pó,
No pó,
Para o pó.
Do pó viemos,
No pó vivemos,
Para o pó voltaremos. ”
Chegou em seu barraco. Nem se preocupou em trancar a porta. Sentado no chão e usando a única cadeira como mesa, despejou o conteúdo do pacote ali. Com o próprio embrulho, separou o pó em carreiras. Depois moldou um canudinho e aspirou a primeira carreira.
“Cheirar o pó. ”
A segunda e a terceira.
“O vento. Rajada. ”
Mais uma carreira. E outra, e mais outra. Já não atinava com nada, ouvia apenas a voz em seu pensamento.
“Cheirar o pó. Vento.
Uma rajada. Tormenta.
Minha vida transformada.
Em nada!”
Vidal tombou de lado.
Dias depois a polícia foi chamada para averiguar um cheiro estranho vindo do barraco de Vidal. Abriram a porta e o encontraram tombado de lado. Algumas carreiras ainda intactas na cadeira esclareceram o ocorrido. Overdose. Em pouco tempo, como poeira ao vento, a notícia se espalhou. Vidal retornou para o pó.

          

 

 

 
 
Poema publicado no livro "Textos de Grandes Autores" - Novembro de 2017