Iane Giselda de Cougo Souto
Florianópolis / SC




Amar só...


               

Algo misterioso se passou. Era como se fosse um sonho, daqueles em que se está no lugar, mas o lugar não está ali. Eu estava em casa, mas estava, mesmo? Tudo parecia diferente. Etéreo, virtual. Irreal, talvez?
Deitei no travesseiro e logo o estranhei. A textura, o volume, o cheiro. Algo estava anormal, ali. Não era como eu me lembrava. Pus um pé no chão, ergui-me da cama e olhei em torno, pelo quarto. Mesmo com todos móveis no lugar, ele estava vazio, de repente!
Segui ao corredor — se posso chamá-lo assim, quero dizer. Tratando-se de um pequeno quadrado que faz a intersecção entre os quatro cômodos —. O estranhamento foi súbito e causticante. Algo devia acontecer ali, algo que, então, parecia turvo em minha mente, que, de alguma forma, sabia que não ocorreria mais.
Não sabia do que se tratava, mas tudo estava fora do lugar. Nada estava como era antes e eu já não reconhecia o meu entorno. Meu olfato estranhava a falta de algum cheiro. Meus olhos não se acostumavam ao vazio repentino. Meu corpo desconhecia os caminhos. Em meus ouvidos... Que silêncio era aquele que se fazia tão sonoro? Quase como um grito, um lamento alto e persistente. Não estava em minha casa. Não, não podia estar. Tudo estava diferente, fora do lugar. Nada era como deveria ser. Tudo faltava, tudo se fora. Nada estava mais ali. Só eu ficara? Em meu peito, a ansiedade crescia. O que estava acontecendo? Que maldição me acometera e, de repente, levara tudo de mim? Maldição... Seria isso? Respirei fundo. Talvez não fosse bem o caso...
Afinal, não era difícil entender.
"Porque estranho o travesseiro?" Me perguntei. Como se não soubesse... Antes, não deitava em travesseiro algum, mas em seu peito. Meu olfato. O que lhe faltava? A verdade, eu sabia, me corrói pensar. Era seu cheiro, que daqui já se foi. Meus olhos procuravam algo. Algo de que, agora, me angustia lembrar. É claro, a visão de ti.
Meu corpo não compreendia, parado naquele pequeno corredor, que as memórias dos beijos que ali se deram agora são apenas isso. Memórias. E dolorosas.
"O que me dói mais, então?" Questionei.
Será que foi não ter aproveitado a paz que tínhamos? Será o fato do primeiro "Eu te amo" ter sido dito em vão? Ou é por querer — e não poder — te odiar, porque me abandonastes quando eu ainda te amava?

...
Benção ou maldição, eu não sei dizer, mas você se foi daqui. E tudo se foi junto. Percebo, com relutância: É isso que acontece quando alguém ama sozinho.


 




Conto publicado no livro: "Contos de Amor"- Edição 2022
Julho de 2022

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