Isabel Cristina Silva Vargas
Pelotas / RS

 

 

Vidas

 

        

Durante a infância e a adolescência ouvia o que contavam sobre ela, minha tia pelo lado paterno. Falecera quando eu ainda era bebê. Não tinha nenhuma lembrança. Dizem que gostava muito de mim, o que não significa muito pois quem não gosta de bebês? Ainda mais sendo uma pessoa  boa e amada por  todos  como alardeavam.
Quem mais falava nela era minha mãe. Ressaltava sua bondade, suas qualidades morais, sua simpatia. Falecera aos vinte e três  anos, creio que de uma doença  sem controle na época-tuberculose - era professora e seu passamento fora uma tragédia  familiar.
Não  sei o porquê, durante muitos anos pensava que morreria aos vinte e três  anos como minha tia. Quando completei vinte e quatro fiquei muito feliz por minha premonição  não  ter se concretizado.
A vida  seguiu normal, depois dessa idade. Casei, tive filhos, neta antes dos cinquenta anos, mas algumas coisas vinham à minha cabeça, sem conseguir entendê-las. Escrever hoje, ainda é uma forma de buscar significados, estabelecer relações.
Meu pai faleceu quando eu tinha uma filha e estava grávida  da segunda, mas ele não ficou  sabendo por estar em início de gravidez. Não tínhamos uma boa relação. Ele fumava, bebia, e tinha gênio explosivo. Certa vez, percebi que nesse quesito nos parecíamos.
Muitos anos após  sua morte, minha tia , irmã  dele, e minha madrinha de crisma me disse que ele tinha muito orgulho de mim. Mencionou o quanto chorou na minha formatura na faculdade, o que eu desconhecia. Eu me formei com vinte e três anos.
Tive amigas, conhecidos que perderam seus filhos o que me deixava  arrasada por considerar o que de mais trágico possa ocorrer na vida.
Confesso que uma vez veio à  minha mente a seguinte interrogação: E quando chegar a minha vez?
Quando meu filho se formou na Universidade e vi seu quadro pronto, achei sua foto tão esmaecida que o meu pensamento foi: - Parece que ele está  indo embora.
Uma ocasião, uma pessoa que edita livros fez um projeto para um livro meu e ao olhar a capa tive um choque  pela sensação de perda que me causou:
A foto era do mar e uma gaivota se distanciando no céu.
Não me animei nem a contar para meu filho.
São  situações que para quem está  de fora devem parecer desconexas. Loucuras, talvez.
Pois bem, perdi meu  filho em um acidente de carro, quando ele tinha vinte e três anos e era professor, assim como minha falecida tia, mais de cinquenta anos atrás.
Fico me perguntando se não passei a vida toda sentindo o que iria  acontecer, e por isso fiquei tão desesperada quando engravidei dele, sem uma explicação racional para tal.
A impressão que tenho é  que ele também sentiu que partiria.
Desejou festejar seu aniversário, um mês antes, reunindo a família e amigos em nossa casa. Não quisemos fazer por meu marido andar muito cansado na época. Então, jantamos fora e ele se reuniu aos amigos em outro local.
No dia de seu passamento ele desejou passar sua senha bancária  para a namorada e ela se recusou. Ele ainda alegou  que poderia ser necessário.
Fragmentos de memória  que permanecem soltos em meu pensamento e no coração os quais eu tento, desesperadamente, juntar para obter uma explicação que eu não sei se existe.
Outra linha de pensamento, deixando a anterior de lado, penso que ele veio me dar o mesmo orgulho que meu pai teve de mim que também era professora no início da carreira e me formei, como já citei, aos vinte e três anos.
Terei essas respostas algum dia? Há essa conexão que tento estabelecer ou é simples coincidência?

 

 

 

 

 
 
Poema publicado no livro "E daí?... Como ficamos?..." - Edição 2019 - Janeiro de 2020